domingo, 22 de dezembro de 2013

Nudez Completa

Algumas têm bigode,
roça e coça
(e Hitler aprova)...

Algumas são uniformes,
fazem cócegas enormes,
mas eu gosto.

Algumas são cabeludas
e a floresta amazônica
me agonia.

Algumas são raspadinhas
e essas, bem lisinhas
são as minhas favoritas...

nada contra pentelhos,
eu até curto poucos pelos,
mas prefiro peladinha.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Capitu


Manhã de uma segunda qualquer,
Com a mochila nas costas,
Ela parou, menina-mulher
Para abraçar uma árvore
Que chora...

Tarde de uma terça divina,
Olhos de cigana oblíqua...
Pedalou, mulher-menina,
Na bicicleta, a estrada passou
Longínqua...

Capitu...
Cadê tu?
Capitu,
Cadê tu?

Noite de sexta que prometia,
Boca que embriaga...
Dançou, inocentemente vadia,
Preguiçosa, esparramou-se
Pela sala...

Madrugada, domingo dormente,
Com sua saia comprida...
Rodopiou, vadiamente inocente
E ao seu lado, senti-me
Preenchida...

Toda semana...
Café na cama.
Toda semana...

A gente se ama...

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Tristópole


Nessa cidade,
concreto:
o cinza invade
em toda parte.
Nessa cidade
concreta,
minha única arte
é a saudade.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Colateral

Égua, tô passando mal...
Sentindo que um fogo me subiu,
E isso não é normal.
Chega tô suando frio!
Tudo ardendo aqui dentro,
Desde a cabeça até o centro.
- Mana, tu és gala-seca?
Deixa de ser peseta
Que isso é frescura e birra.
Não se aperreie,
Que isso é passageiro:
É apenas o efeito
Da gengibirra.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Por Inteiro




Ela me beija com os cabelos, quando a brisa traz o aroma de tantos fios até minhas narinas, proporcionando uma paz que só ela pode me oferecer. Com eles presos ou soltos, ela areja minha vida, compassadamente. Ela me beija com tiara, fita, laço, chapéu... Se eu pudesse, guardaria um chumaço pequeno dentro de um saquinho e colocaria com afeto dentro uma gaveta, de tão preciosos que eles são para mim.
                      
Ela me beija com os olhos, quando cerra os cílios longos e se aproxima de minhas bochechas, piscando rápido só para me causar cócegas. Com aqueles mesmos cílios compridos, ela varre todas as lágrimas, freneticamente. Ela me beija com aquelas duas petequinhas negras que mais parecem jabuticabas maduras, prontas para serem colhidas. Se eu pudesse, engoliria aqueles olhos, de tão suculentos que se apresentam apenas para mim.

Ela me beija com as mãos, quando me abraça e quando sinto seus dedos finos deslizando pelo meu rosto para controlar cada choro dengoso. Com as mãos feridas, às vezes me desespero, ao pensar que talvez ela não consiga me acarinhar e choro mais um pouco. Ela me beija com as unhas, ao arranhar minhas costas, nos nossos momentos de intimidade... E as marcas de tudo que ela representa ficam por dias cravadas em minha pele, e eu agradeço por ter um motivo para lembrar as minúcias de nossas cenas de amor. Se eu pudesse, colaria as mãos dela nas minhas, pra mode ela nunca se separar de mim.

Ela me beija com os seios, quando me permite descansar entre eles nas noites em que dormimos juntas. Com o típico formato esférico, sempre há uma vontade, um desejo latente de permanecer ali eternamente e repousar minha cabeça por incontáveis horas até que seja necessário acordar. Ela me beija com os mamilos escuros, com o colo disponível, pronto para me receber, e eu fico: prestes a me encontrar e me perder. Se eu pudesse, carregaria os seios dela pra todos os lugares que eu visitasse, pra ter um porto seguro nas madrugadas em que ela estivesse longe de mim.

Ela me beija com os quadris, quando se entrega à plenitude que entende por me pertencer. Com a malemolência que lhe é peculiar, ela rebola e faz bom uso de seus atributos de mulher como ninguém jamais conseguirá usufruir. Ela me beija com a cintura farta, com a virilha que se afaga na minha. Se eu pudesse, nunca tiraria as mãos daqueles quadris, afim de acompanhar os mínimos movimentos que ela realiza em cima de mim.

Ela me beija com as pernas, quando anda de bicicleta, dentro do vestido azul florido que ela tanto gosta. Com o veículo emprestado, ela o guia como se fosse seu, numa maestria certeira, e a rua inteira se ilumina enquanto ela passeia distraidamente no asfalto quente. Ela me beija com aqueles pares morenos que caminham rumo ao infinito, para além do horizonte, e que me prendem e me puxam para mais perto quando estamos na cama. Se eu pudesse, me entrelaçaria nesses pés de bailarina, pra não ter frio debaixo do cobertor, e dançava ao lado dela em nosso particular jardim.

Ela me beija com a boca também, às vezes. Com os lábios macios e com a docilidade de quem cuida de uma criança, mas que tem noção de que quando a coisa evolui, o suspiro vira gemido e avança. Ela me beija com cada parte do que lhe é parte e talvez não perceba que tudo o que lhe compõe me completa, mas eu vejo dessa forma: que todo o corpo dela é um ósculo perfeito. Se eu pudesse, diria a ela por meio de algum texto que ela me beija através de cada célula, só por existir e me dar a magnitude de sua cor carmim.

sábado, 16 de novembro de 2013

Regência


Teu nome
Verbo intransitivo
Que cabe em minha boca
Em cada sussurro ao pé do ouvido.

Meu sentimento
Verbo transitivo eterno
Amo, a partir desse momento,
Você: objeto direto.

Necessidade latente assim
Também requer complemento:
Preciso de você, rente a mim,
Com preposições em movimento.

Tu, tão cheia de predicados;
Eu, tão carente de predicativos;
Tu, sujeita a mil pecados;
Eu, conjunto de frases sem sentido.

Nós, oração de mensagens repletas;
Nós, semanticamente perfeitas;
Nós, formas morfológicas completas;
Nós, linguisticamente eleitas.

Sintaxe
Nossa.
Sinta-se...
Minha.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Era Uma Vez


Entre a floresta,
Dentre a densa relva,
Maria e seu irmão, João,
Perdidos... Rumo à execução.
Os pedaços de pão do caminho?!
Devorados pelos passarinhos.

Entre uma casa de guloseimas,
Dentre o cansaço das brincadeiras,
Para escapar da escuridão
Uma bruxa fez a recepção
Em seu palacete:
Os gêmeos virariam banquete.

Entre duas gaiolas,
Dentre um regime que engorda,
À noite, João mostrava seu dedo,
Até que descobriu o segredo...
Um osso de galinha deu jeito:
Forte, parecia um graveto!
A bruxa cega só sentia um espeto.

Entre a bravura,
Dentre a grata fuga,
Ambos correram em desespero
- O momento derradeiro -.
João e Maria nunca voltaram
E de sua casa não mais se afastaram.

domingo, 3 de novembro de 2013

SAL-dade

Sal no mar 
explode 
vitalidade. 

Sal na face 
escorre 
saudade.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Desjejum



Uma vez meu pai me disse:
- Filha, poesia não enche barriga!
De fato, não matou minha fome.
Confesso que fiquei muito triste,
Sem saber direito o que fazer da vida,
Mas continuei a louvar o seu nome.

Uma vez provei da palavra
E me alimentei do que ela oferecia.
Não enchi a barriga, mas preenchi a alma
E daí pra frente foi só alegria.
Espírito pleno em cada refeição,
Hoje peço, segura, com o livro na mão:
- Por favor, me veja um prato cheio de poesia!

sábado, 26 de outubro de 2013

Ênfase


Nesse mundo tacanho,
Ter você é tanta sorte
Que para dar o devido enfoque
A esse sentimento tamanho,
Com alguns toques,
Digito em caps lock:
EU TE AMO!

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Desmotivar


Nasceu com asas
Que logo foram cortadas.
Os pais, desiludidos
Com notícias desanimadoras,
Pegaram um dicionário
Para crianças sonhadoras.
Ensinaram ao menino
Uma realidade de outro nível
Com uma palavra destruidora:
O conceito de
impossível.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Val(idade)



I

Com medo de sua mortalidade,
Sentia tanta inveja dos felinos
Peludos, ariscos e distintos,
Que quis ter sete vidas para poder ir além.
Tinha pavor de falecer menino
E, sabendo da própria transitoriedade,
Começou a espalhar fofocas,
Desprezar o amor ao próximo,
Causar intrigas e semear discórdia
Pra ver se conseguia, de alguma forma,
Se por acaso ou por misericórdia,
Incorporar os anos de vida dos outros também.

II

Qual não foi sua surpresa,
Quando a longevidade alheia
Acumulou-se em sua existência.
De fato, já nem mais envelhecia,
Para desespero da ciência.
Mas chegou um ponto em que o fim da linha
Era a opção mais confortável a seguir.
Levou desde sempre atitudes tão mesquinhas,
Que agora sequer sabia para onde ir.
Quando se petrificou o secular coração,
Tomado pelo vazio da apatia,
De tão miserável, morreu um dia
Por causa da solidão.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Entre o Humano e o Divino


Ciente da minha condição humana,
Não temo, pois não há razão para medo:
Desde muito cedo,
Aprendi a respeitar Deus.
E, sabendo que o amor é divino,
Nutro em mim sentimento infinito
Que, de dentro pra fora, cresce.
Meu peito se expande de leste a oeste
E, por amar com a fé de quem faz uma prece,
Sigo doando abraços que não se medem:
Assim, fico mais perto do céu.

domingo, 15 de setembro de 2013

Farsa




Tua caridade ostentada

É autoafirmação

E em cada doação

Há rastros de egocentrismo



Tua bondade pública

É megalomania disfarçada

E em cada boa ação executada

Há migalhas de autoestima



Teu engajamento

É pura hipocrisia velada

E em cada empatia forçada

Há tentativas de compensação



Tudo que eu desejo

É apenas sentir desprezo,

Pois a cada vez que me apercebo

Há somente donativos em formato de placebo.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Compromisso


Sabendo que não te mereço
Fiz-me altar de promessas para melhorar
E se faço o que posso, tudo tem um preço
Açoita-me a culpa por não me igualar.

Sabendo do teu apreço
Esforço-me para ser digna do teu amar
E se às vezes me esqueço,
Ponho-me de volta, às memórias, para lembrar.

Sabendo de minha imperfeição
Ajoelho-me à noite para não pecar
E se faço morada em teu coração
Sinto-me querida e não quero perder meu lugar.

Sabendo de teu cuidado,
Evito ao máximo provocar teu penar
E se já tivera eu te machucado,
Desculpo-me e tento, ao erro, não retornar.

Sabendo que sou assim, tão torta,
Deixo-te livre para me abandonar
E se preferires permanecer, dizendo que não importa,
Alegro-me e volto à rotina de sempre me superar.

domingo, 1 de setembro de 2013

Marchinha para Maria


Maria Rosa Branca
Dois sobrenomes
Pareciam nome
E ela só quer girar

Maria Rosa Branca
Foi pra uma ciranda
Como uma criança
Se pôs a rodar

Maria Rosa Branca
Seus olhinhos claros
Brilho ofuscado
Pelos passos que dá

Maria Rosa Branca
Baila como sabe
Valsa o que lhe cabe
E pode descompassar

Maria Rosa Branca
Erra e não se importa
Pois depois de morta
Não vai adiantar

Maria Rosa Branca
Desengonça a dança
Feliz por ser mansa
Mesmo sem ter um par.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Fenômeno



Quando dei por ti, estavas impregnada nos meus dias. Não digo que dei por mim, porque quando percebi... Eu já era inteiramente tua e sequer me pertencia. 

Estás no espreguiçar matutino, nas pernas erguidas na rede, iluminadas pela luz vespertina. Estás principalmente nos pensamentos rotineiros que antecipam o sono profundo, e enquanto eu peço baixinho pra que sempre te tenha inserida no meu dia-a-dia, noite-a-noite. 

Quando dei por nós, eu já não me cabia de tanto afeto, porque transborda demais. Mas ao mesmo tempo, eu caibo dentro de ti, e esse espaço basta por si só. 

Mas eu sempre fui rio: águas turvas, profundas, porém doces. E a princípio tive muito medo também, pois só havia encontrado poços escuros e rasos. Afogava-me a pequenez das enxurradas alheias. Sufocava-me o fato de todo mundo dar pé. E então, te apresentaste: mar infinito de água cristalina! O medo passou para temor da tua imensidão; do teu sal me destruir e a fusão das incontáveis gotas resultar em uma catástrofe natural. 

A verdade é que tinha me acomodado em ser quem amava mais; quem se entregava por completo. Encontrar alguém que correspondia à intensidade dos mergulhos me deixou sem areia, sem praia, sem chão, pois tu encharcas qualquer sertão. 

Eu, acostumada a me envolver com a carência de líquidos outrora - experiências rarefeitas de carinho -, ali me senti quase insuficiente. Não contive a surpresa ao notar reciprocidade plena (ondas calmas e não revoltas, por haver equilíbrio). 

Agora é evidente minha pura insegurança... Não fico mais à margem de nenhuma desconfiança: não há felicidade maior que amar sem medidas na mesma medida. Percebo a beleza nos fluidos dessa troca: eu deságuo em ti, e em nós... Pororoca.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

TAM-BEM


Se me dizes sentir saudade
E eu correspondo,
Vou me recompondo
Da ansiedade.

Se dizes sentir minha falta
E eu digo ser recíproco, querida,
É porque se o mesmo entra em pauta
Não é também, minha vida.

Se essa dor é de ambas as partes,
O sofrimento não é banal.
Também rima com desdém,
E na sua ausência,
Se você não vem...
Não há encontro, então...
Tá mal.
Não tá bem,
Logo, não há tam-bem: só tam-mal.

domingo, 11 de agosto de 2013

Pastoril


Peço-te encarecidamente
Que me guies eternamente:
Como ovelha de teu rebanho,
Como prova de amor tamanho,
Como temor de que, um dia, me percas.

Peço-te atenção,
Que este pampa é de imensidão:
Como campo que não se finda,
Como planície a perder de vista,
Como certeza de que o sol sempre se ergue.

Peço-te cuidado
Que este torrão é teu, ser amado:
Como as gotas que cabem em um rio,
Como a dedicação de um pastoril,
Como a segurança de que o infinito nos cerca.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

SOUL-venirs


Há vida nas coisas inanimadas
A partir do momento em que adquirem significados.
Se acaso, com carinho, são tocadas,
Ganham a bênção de trazer recados.

Há vida nas coisas inanimadas
Quando remetem a histórias, memórias e espaços.
Despertam a nostalgia de datas
E relembram antiquíssimos laços.

Há vida nas coisas inanimadas
Porque as relações assim as revigoram, inconscientes.
Alianças, retratos, cartas, camisas desbotadas:
O amor dá à luz até a objetos inocentes.

Há vida nas coisas inanimadas
Porque o homem vê nelas o reflexo de seus erros.
Cada
souvenir é um ano de decisões equivocadas:
A mobília é um relicário de segredos.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Mea Culpa


Dos meus erros estou ciente
Do quanto fui inconsequente
E arrependo-me pelos meus atos.
Independentemente dos fatos,
Minha culpa eu carrego sozinha:
Acolho a dor que se avizinha
Como preço pela minha culpa.
Ainda que eu implore perdão ou desculpa,
Que seja para quem possuo a dívida.
Não aceito intromissões na minha vida,
O olhar de desprezo alheio e a língua ferina atroz,
Pois minha própria consciência já é meu pior algoz.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Engrande-SER


Às vezes, por um lapso de lucidez,
Percebo o que sou dentro do universo
E noto minha infinita pequenez.
Se sou hábil para escrever algum verso,
Não é porque almejo qualquer glória.
Nessa vida onde somos nada mais que grãos de areia,
Sobreviver dia-a-dia já é uma vitória
Que queima, flamejante, tal qual centelha.
Entretanto, há algo que dignifica o homem;
Um sentimento capaz de nos transformar em gigantes,
Que dá sentido à rotina para louvarmos seu nome:
Sim, meus caros... Apenas o Amor nos faz grandes.

sábado, 20 de julho de 2013

Lend(A-Z)


Don Juan da Amazônia
Engravida as virgens
Conquista sem parcimônia
O Boto nas margens...

Ameaça Boiúna
Cresce mais e mais
Rasteja e inunda
Cobra grande voraz!

Criatura que corre na mata
Com os pés ao contrário
Entidade da floresta nata
Curupira, Caipora!

Sereia que (en)canta no rio
Destruindo sem mágoa
Qualquer homem perde o brio
Iara, mãe d’água!

Assombração que pede tabaco
E apita na madrugada
Quer fumo no escuro opaco
Matinta Pereira, rasga-mortalha...

Mágico amuleto
Que concede pedidos
Presente predileto:
Muiraquitã, artefato querido.

Esse tronco que sobe o rio
Padeceu por amor
Madeira levada pelo vazio
Tarumã, índio sofredor...

Pássaro raro
De plumagem vermelha
Com um canto lendário...
Uirapuru incendeia!

Naiá se afogou
Apaixonada por Jaci
Estrela que virou flor
Vitória Régia boia feliz.

A floresta traz consigo
Riquezas de tradições
A Amazônia habita ainda

O imaginário dos corações...

terça-feira, 16 de julho de 2013

Do1s


Nós
Num nó de dois corpos
Até o nós
Ser um só ser.
Laço de fita,
Menina bonita,
Até desamarrar
Desatar o nó
Do tecido
E (me) amarrar
Em teu quadril despido.
No teu mar de amar,
Par de amor:
A teu dispor
Ponho-me
Pois morrer de amor
É viver o um.
Pois viver o nós...
É ser.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Não VOLTS


A verdade é que nunca consegui acompanhar teu ritmo.
Parecias estar sempre ligada no 220.
Iludida, nutri por muito tempo o desejo íntimo
De um dia poder te alcançar com requinte.

A verdade é que eu amei uma bomba-relógio
E me pergunto se não devia ter logo explodido.
Exibida, não enxerguei o que era tão óbvio
E quando dei por mim, já havia me ferido.

A verdade é que sempre estiveste um passo à frente
Porque eu te alçava adiante, jogava a teu favor,
Até esquecer que existia um laço; um nó: a gente!
E enfim abri mão de mim mesma, por amor.

A verdade é que de tanto te impulsionar avante,
Eu fui aos poucos ficando para trás...
E em nenhum momento me buscaste, distante,
Pois era cômodo que eu estivesse logo atrás.

A verdade é que aprendi das piores maneiras...
O que preciso é alguém para andar lado a lado,
Para que nos construamos como partes inteiras
Posto que é injusto só um carregar o fardo.

domingo, 30 de junho de 2013

Vital


Se tu já és o motivo do meu compor,
Explica: por que tantos ciúmes, amor?
Se tu já és razão de todos os versos meus,
Explica: por que o medo de que eu te diga adeus?

Se teus cabelos são os fiandeiros da minha vida,
Responde: que vida terei eu sem ti ao meu lado?
Se teu colo é minha morada preferida,
Responde: em que peito eu descansarei do diário fardo?

Se tu já és a menina de meus olhos,
Diz: com que olhos eu enxergarei outro alguém?
Se tu já estás presa em minha retina,
Diz: quem mais colorirá minha íris daqui um ano ou cem?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Amar-go


Você se foi e deixou a xícara cheia.
E eu, abandonada por inteira,
Fui deixada vazia
Junto dessa manhã fria.
Mas se quiser voltar,
Vou guardar seu lugar.
E se o café esfriou,
Eu esquento o leite pra nós dois.
Mas se você não vier,
Não importa onde estiver:
Manterei sua cadeira vaga
Ainda que me torne, da solidão, escrava.
E o café terá o sabor mais amargo
Se não te tiver à mesa, ao meu lado.

sábado, 22 de junho de 2013

Laudo Pericial


O legista analisou o corpo
Daquela simples e jovem dama.
Após extraordinário esforço,
Não chegou à conclusão de nada.
Pediu ajuda, então, de um camarada
E perguntou se era hemorragia interna,
Talvez um AVC ou até mesmo infarto...
Depois de minucioso laudo, o colega
Atingiu-lhe com a notícia de impacto...
Essa moça, vejo eu, tem olhar apaixonado
E a morte derivou do seguinte motivo:
O coração inflou tanto no peito que, enfim, estourou.
E assim, não deram explicação ou aviso.
O falecimento foi justificado do jeito mais óbvio
E em sua certidão de óbito
Estava escrito sobre o mistério
Desse sentimento que mata sem nenhum critério.
A perícia leu em voz alta sem ninguém se opor...
-
Causa mortis: explodiu de amor.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Recado


Humildade é dom que poucos possuem;
Antipatia é desnecessária, mas muitos assumem.
E a maioria dos que se julgam estrelas
Nem são a última Coca-Cola gelada do deserto:
São encontrados no minibox que estiver mais perto.
Não passam de glitter de qualquer papelaria,
Perdidos entre artigos baratos e velharias,
Entre promoções de queima de estoque.
Você não é tudo isso: se toque!
Lamento informar essa notícia de choque:

Ainda há várias bolachinhas restantes no pacote.

domingo, 9 de junho de 2013

Egoísmo


Concentra-te em construir um futuro
Valendo-te de teu próprio esforço
Para enfim colher o fruto maduro
De um mérito duradouro.

Convence-te que a vitória
É proveniente dos teus passos
E se ages prevendo elevar-te no espaço...
Tudo ruirá no fim da história.

Em geral, falta caráter nos homens
Que prejudicam-se, uns aos outros, sem dó.
Pensam em seus interesses e só,
Abomináveis individualistas insones.

Uma glória escassa
Não é conquista: é trapaça;
E não vale sequer um vintém
Se passares por cima de alguém.