quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Seu Zeca

Eu já não tenho os dentes de antes
e as rugas se apresentam;
não tenho a astúcia da juventude,
mas carrego a angústia dos que se aposentam.

Ouço ao longe palmas distantes
e vozes que se sustentam;
não entendo bem a comemoração,
mas sei que festas todos inventam.

Percebo a música distorcida
e velas que se acendem;
não recordo qual a data querida,
mas espero que eles se lembrem.

Eu já não tenho a memória de outrora
e as lembranças se embaralham;
não tenho culpa de minha idade,
mas imagino que rapazes também falham.

Deito quieto no sofá da sala
e minha família continua os parabéns;
não conto mais quantos aniversários
porque não consigo enumerar de zero a cem.

Repouso tranquilo em minha cadeira
e tomo Danone para que a calma paire;
não há mais pressa e nem saudade
para quem sofre de Alzheimer.


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Concretude


este mesmo corpo que me prende,
que me envolve e repreende...
este mesmo corpo que me molda,
me limita e me amarrota,
é o mesmo corpo que me liberta,
me permite e se expressa
de dentro pra fora.

este corpo tão preocupado
com padrões de todo lado...
Este corpo normatizado
[e violento
com desejos e libido...
este corpo que não pode ultrapassar 3 dígitos
é um corpo que (se) importa e é exportado:
de fora pra dentro.

este corpo sou eu, an(t)ônimo ser,
e se sustenta em saber
que é matéria para jornais e revistas,
rankeado em listas,
mas acima de qualquer top 5
indubitavelmente é advindo
de outra matéria muito mais nobre.

Descobre.