quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Brasil Novo/Universidade


Avistei você passando descontraída
Na calçada, do outro lado da rua,
E confesso que me senti traída
Ao te ver sorrindo de forma tão pura.


Acho que quando a gente sofre
Espera que o mundo em volta tenha um matiz escuro.
Mas nem tudo cheira a enxofre:
Seu par de jabuticabas continua maduro.


Você estava com minha roupa favorita
Enquanto eu já nem sei mais o que visto.
Pego a peça que estiver menos rota e encardida,
Combino xadrez com listras e é isto.


Só eu ando por aí, monocromática.
O universo ao redor ainda é colorido.
Porém, como sou ruim em Matemática,
Esqueci que na soma 1+1, um dos uns sempre sai ferido.


Vi coisas que não podem ser desvistas,
Tantas que me ceguei para o resto.
Com elas, fiz inúmeras listas,
Que guardo para mim e não empresto.


Mas mesmo assim, enxerguei você,
Pela janela do transporte público.
Meu coração quase parou de vez:
D(o)eu um pulo de súbito.


O ônibus arrancou de primeira
E a descarga jogou na atmosfera dióxido de carbono.
Mais uma sexta-feira
Do tom da substância lançada na camada de ozônio.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Décimo Primeiro Mês


Quanto tempo faz, que já nem lembro?
Quanto tempo falta para demorar?
Ando sem lenço nem documento,
Só um GPS para te encontrar.

Quanto tempo faz? Já foi novembro...
Quanto tempo falta para superar?
E eu decorei cada momento:
Uma pasta de imagens para recordar.

Mas o tempo está a me atropelar.
Quanta vida me resta gastar?

Quanto amor eu dei sem vencimento?
Qual lastro eu tinha para usar?
Acho que cheguei nos 100%
E o meu estoque já vai transbordar.

Quanto amor cabe dentro de um incenso?
Quem sabe, de repente, eu possa queimar.
Talvez ele vire pó, e lento,
Possa enfim, meu peito, sossegar

Mas o amor está a me afogar.
Quanto ainda consigo respirar?

Pela ampulheta caem cinzas
Em vez de areia para me guiar.
Os ponteiros marcam horas findas
Em vez de uma chance de recomeçar.

sábado, 1 de novembro de 2014

Queloide


Quando a tristeza anestesia a esperança
De um amor que se findou,
Este mesmo amor gera uma lembrança
De um fio que sempre esteve por um fio...
E enfim se cortou.

O fio, outrora de cobre
Agora não cobre a costura do tear.
Frágil, este mesmo fio se descobre
E amortece, e tece
O não se importar.

De tanta dor, o amor não se esquece,
Mas cria espaço para a chaga fechar.
E o fio, por um triz,
Virou cicatriz
Até a pele sarar.

Depois de anestesiado
Pelo amor do passado
Que ainda está vivo,
Apenas um pouco sonolento...
Em desmedido sofrimento,
Termino de bordar o tecido:


Amor-tecimento.