sexta-feira, 12 de junho de 2020

Ataranto

possuo estas mãos
um tanto quanto desajeitadas
que sequer sabem dar conta
das tarefas domésticas diárias
lavo a louça respingando em toda a cozinha
demoro duas horas só para cortar os temperos
minha motricidade — nada fina 

[não por falta de esmero
apresenta uma caligrafia apenas legível
o suficiente para impor ao quadro branco
[e às turmas
uma letra minimamente entendível
estas mãos te tinham:
com semelhante ausência de habilidade
me atrapalhava em desabotoar teu sutiã
e tentar amar-te era sinônimo de risadas
das quais agora sou órfã
então eu me concentrava
[desengonçada
em trançar entre os dedos
cada centímetro de teus cabelos
e esperando diante da porta
me permitia ser convidada
pra dentro de tua morada
e apreciava tua pequena morte
antes de ires embora
estas mesmas mãos
hoje encontram-se vazias
minha pele? embrutecida…
e contrariando o ditado popular
não há nenhum pássaro a voar

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Falta de Bom Censo



“gente morre todo dia
mas agora tudo é covid
racismo
trans e homofobia
ninguém morre mais
de morte morrida”

a troco de nada
tantas estatísticas
não são números
são vidas
APAGADAS
nomes
não-registrados
no abecedário
do negacionismo
reacionário

não apenas cêpêefes
corações pulsantes
de sonhos
com o peito arfante
sem ar
jamais serão esquecidos por nós
ou afogados
nesse mar
de desespero
e lodo
onde estamos todos
tentando nadar

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Doppelgänger



recentemente
a NASA começou
a considerar
a possibilidade
de um (anti)universo
paralelo
existente
essa descoberta
— agora científica 
eu já sabia
em uma dimensão empírica
sempre senti
que em algum lugar
a gente ainda se tinha

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Inertia

não há voo
nem pouso
nem mergulho
nem queda
ao amar

há o planar
que flutua
paira
sustenta-se
no ar

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Embaraço


Ser lésbica nunca é confortável.
É até aceitável, no silêncio do armário da cidadã que não levanta bandeiras e recolhe impostos.
Há sempre um incômodo que gravita em torno, que faz terceiros se ajeitarem na cadeira e estalarem os pescoços.
Algo fora do lugar. Algo inconveniente e embaraçoso, escondido em um sorriso amistoso.
Por causa dessa atmosfera, cheguei a encolher e minguar todo o meu sem-fim.

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No primeiro encontro, quero beijá-la. Mas nunca a beijo logo de cara. Nunca sem averiguar previamente e olhar para os lados, à espera que a rua fique vazia e escura. E estar com ela é meu maior ato de bravura. Por isso que quando vamos para o quarto, as luzes ficam acesas, pois é quando podemos nos ver com clareza.
No segundo encontro, observo os mendigos da praça. Não há ameaça. Posso beijá-la mais uma vez no intervalo da troca de turno entre os guardas. E sigo tocando-lhe as coxas nos interstícios sem pedestres e transeuntes. No final do dia, juras e abajures.
No terceiro encontro, aguardamos o caminhão do lixo passar. Evitamos circular por entre os canteiros de obras. Na frente dos armazéns e bares, impropérios. Mas andar por terrenos baldios também é ainda mais perigoso. E seguimos intercalando por grilos taciturnos e cantadas baratas, de acordo com o movimento da cidade.
Jamais fico sabendo se haverá um próximo rendez-vous, ou se será o último. Este é o critério para tê-la: o mistério.

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Minhas mãos suam. De excitação. E medo. Excitação por estar de mãos dadas. Medo por estar de mãos dadas... com ela.
Se tenho vergonha de ser lésbica? Não. Entretanto, não desejo que ela sofra consequências por me querer de volta. E nós nos conhecemos tão bem, pois o amor entre mulheres estabelece uma comunicação só pelo olhar: carregamos juntas o suor das mãos, o suor de excitação e medo. E esse era o nosso segredo.
Ou nós achávamos que era.
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Esse mesmo olhar, essas mãos suadas, que eram confidência recíproca, também foram confissão. Quanto mais calávamos, mais revelávamos. Através da troca de soslaios clandestinos no churrasco da família, a quem fui apresentada como colega da faculdade. No supermercado, quando mantínhamos uma distância regulamentar de alguns passos. No trabalho, quando ia deixá-la uma esquina antes. Durante os durantes, deslizes e pistas de um crime inexistente. E então, quando a mudez propositada ficou insuportavelmente audível apesar de nossas estratégias de mascaramento da verdade, vieram interrogatórios e julgamentos e toda a lonjura que sempre nos impusemos se tornou afastamento compulsório. O tempo perdido em encobrir para todos e descobrir entre cobertas e lençóis foi em vão. Desperdicei a plenitude em uma esperança de proteção, no intuito de poupá-la. Todavia, não há escudo para o alvo.
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Não me importo com o que pensam de mim. Mas evitei vê-la com dedos apontados para si. Só que ser lésbica nunca é confortável.
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A zona de conforto é uma falácia com prazo de validade, sobrevida em felicidade-de-pequeno-porte. Uma zona de conforto permanente é acompanhada de uma sentença de morte.
Basta. Comecei a ser bastante.
Agora vivo sendo inoportuna.
Pedra no sapato.
Sapatão.

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