segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Sobrevivência

Resultado de imagem para pernas apressadas

morro em inúmeras ocasiões
morro duas ou três vezes ao ano
morro ao contabilizar os danos
[e todas as decepções]

morro em cada encruzilhada ética
morro ao matar meus ideais
morro oca em politicagens letais
[que me transformaram em cética]

morro em vida por perder a essência
morro em cólera insaciável
morro de mão atada e execrável
[a sós com minha consciência]

morro em eleições e por votos
morro ciente de minha hipocrisia
morro para manter a hegemonia
[e sorrir à força em fotos]

morro por alguns reais a mais no salário
morro para engordar o contracheque
morro porque sou capacho e carpete
[de um regime ditatorial e mercenário]

morro pelo excesso e pela falta
morro pelo silêncio e pela fala
morro pela crença e pela certeza
[de não suportar minha própria sujeira]

morro porque morrer é inevitável
morro fadada a esse destino
morro porque meu espírito assassino
poupou apenas o que é censurável

morro quando tento uma sobrevida
morro porque isso me obriga a cair no abismo
morro em prol de um favoritismo
[existo já como pseudo cadáver, fria e vazia].

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Colarinho


recentemente descobri
que sempre bebi errado.
vi um vídeo no Facebook
com um truque:
a cerveja tem que ter colarinho
por causa do dióxido de carbono
caso contrário
há uma reação química no organismo

recentemente percebi
que sempre amei errado.
vi coisas aparentemente simples
com mais clareza:
o amor tem que por as cartas na mesa
por causa da franqueza
caso contrário
nos engasgamos com aquilo que escondemos

e eu engolia cerveja sem colarinho
e eu engulo certezas e sentimentos

não sou como Bukowski
com um pássaro azul no coração
não sou como os apaixonados
com borboletas no estômago
sou como uma esponja
que absorve palavras tóxicas
e suporta calada
até se encharcar

qualquer dia desses explodo
como vulcão em erupção;
qualquer dia desses transbordo
como autodestruição...

qualquer dia desses não me caibo mais.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Afinal


eu vou te amar pra sempre
podes contar comigo sempre
sempre estarei ao teu lado
quero ficar contigo pra sempre

a ternura do eterno:
tensão contratual
[contraste moderno]

quanto tempo dura o pra sempre?
pra sempre é muito tempo.
o tempo do pra sempre
talvez não seja o tempo dos homens.
então por que cargas d'água
sempre juramos pra sempre?

quiçá estejamos sempre
equivocados:

o pra sempre dura
enquanto se sente.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Esmaecimento



Imagem de art, charcoal, and deconstructed


onde escondeu-se a paz?
em que ponto do caminho
deixei, enfim, para trás
todo aquele carinho?

ando um tanto confusa
a respeito de quem és:
já não sei se me usas
ou se estou a teus pés

e por não lembrar mais
abro uma fenda no tempo:
entre o nunca e o jamais
guardo o esquecimento

do que tínhamos
do que sonhávamos
do que poderíamos
do que teríamos

com a visão embaçada
permaneço confortável:
minha companhia se alinha
ao meu eu domesticável

sequer sinto tua falta
e nem me torturo em vão;
quando a dor me assalta
reservo-a em um porão

em um baú
em um cofre
em um erário cru
em uma caixa nobre

e aos poucos te transformas
[tomas a forma de teus erros]
e depressa te deformas
[em meio ao nosso enterro]

assim, a cama espaçosa
já não clama tua presença
tampouco a pele amorosa
requisita a benquerença

o restante? nem importa.
agora não me iludo
pois o que me reconforta
é saber que fiz de tudo...

só abri mão
só me d(o)ei em entrega
só desgastei coração
só apaguei quem eu era.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Condição Atmosférica




Amapá:
leves pancadas de chuva
sexta-feira, 36°C
não esqueça o guarda-chuva


o mormaço se levanta
nuvem espessa, muita lama
nos jornais a apresentadora avisa:
dia quente, meio-dia


fim de tarde:
vento forte, umidade...


o homem meteorológico
não consegue prever o tempo.