segunda-feira, 18 de março de 2019

Bússola


Imagem de compass, vintage, and grunge

éramos felizes:
encontramo-nos por acaso.
porém, de uns tempos pra cá
começou um descompasso...
antes caminhávamos juntas,
combinando bem os passos.
agora tropeçamos:
meu pé direito, em direção ao futuro,
se atrapalha com teu pé esquerdo
emperrado
no passado.
e no desritmado compasso
estancamos no marasmo
dos desentendimentos estúpidos
no meio da Avenida FAB.
eu quase caí num bueiro,
tu desviaste de um buraco.
nem sei mais pra onde íamos,
tamanho o embaraço.
de tanto discutir em vão,
a fim de não perder o norte
[era para a praça da Bandeira,
Parque do Forte,
ou à orla da cidade?]
soltei de vez tua mão
e segui rumo à liberdade.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Válvula de não-escape

quase oito:
café da manhã com biscoito
alguma tragédia nacional
antes de ir trabalhar
Brumadinho
passo a ferro a camisa de linho
já evito o jornal
mas a rede social
Imagem de love, heart, and rednão deixa eu me enganar

chego no trampo
o colega me dá outra notícia ruim
enrolo o meio de campo
e saio pela tangente
dando voltas no jardim

tudo contamina
a política, o próprio café
os agrotóxicos
[os amigostóxicos
os narcóticos
ultimamente, até a fé

fim de expediente
COpelo cano
apressados me fecham no trânsito
buzinam e xingam
entretanto meu carro é 1.0
pergunto-me se Homero
escreveria hoje um épico urbano

volto para casa
não ligo a televisão
todavia, fugir da desgraça
não a impede de acontecer
lancho o dormido pão
percebo que estou vivendo uma trapaça
em minha bolha de apatia
não há para onde correr
amanhã será outro dia
outro dia para não ser.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Gleba

em minha casa
- que não é um lar -
deslegitimam o meu amor;
menosprezam o que sou;
dizem que não faço parte
de um casal, e sim de um par.
na minha pátria
sou pária.

em minha casa,
se no quintal grito "socorro",
o telefone sem fio rola solto:
na sala de estar,
a notícia já sobre algum desaforo
que eu falei para atacar.
na minha pátria
Resultado de imagem para ninguém solta a mão de ninguémsou pária.

em minha casa,
ganho menos do que todos.
nessa Novíssima República
da desinformação,
a ignorância é agora a constituição.
o síndico do condomínio
foi escolhido para causar desunião.
na minha pátria
sou pária.

em minha casa
já não tenho morada.
saí para o parque
a fim de espairecer;
lá encontrei mais gente como eu.
gente excluída,
gente sem vez.
na nossa pátria
somos párias.

fugir de casa?
não.
transformá-la em lar novamente.
de mãos dadas
com toda aquela gente
deslocada, sozinha, rechaçada.
senti-me retomar as rédeas
para mudar o curso das tragédias:
na minha pátria
serei revolucionária.

isso nunca vai mudar,
passe o tempo que for
nem que eu precise lutar
contra quem me expulsou:
é aqui meu lugar,
não tenho que pedir.
ficar não é nenhum favor.
sou dona e proprietária
de minha pátria!

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Pleito

Imagem de poetry, resistance, and art

bandeiras coloridas
partidos
coletivos
movimentos
ativismo
horário eleitoral nada gratuito

campanha nas campanhas
discursos
além do curso
das horas

jingles mudos 
para candidatos 
que não têm nada a dizer

a militância das palavras
é solitária
não há neutralidade
na ideologia versificada

mudar o mundo
requer urnas
[funerárias

voto no pseudo silêncio
da engajada
lírica luta
fora da caixa
distante da turba
autônoma... singular 
eremitas, uni-vos!

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Gazeta

os poetas alardeiam
o amor
EXTRA! EXTRA!
Imagem de art, space, and moono amor na manchete
inventa eternidades
põe contratempos em cheque.

"quem quer dá um jeito
quem não quer dá uma desculpa".

os poetas pavoneiam
o amor
mega-sena da virada
o amor da reportagem
comercial de margarina
é miragem.

o amor não é nada disso que os poetas falam.

o poeta é editor
de um jornal sensacionalista
[barato

poetas fake news.