quarta-feira, 30 de julho de 2014

Eva(cu)ar


Recentemente assisti a uma entrevista:
Nela, com um ar que lhe é peculiar,
Dercy Gonçalves enumerava, em uma lista,
Que as melhores coisas são: comer, dormir e cagar.

Ora, a respeito de tal testemunho
Refleti e cheguei à conclusão
De que sobre tal opinião e por seu cunho,
A senhora estava coberta de razão

Principalmente no que se refere ao ato
De expelir do organismo
O barro que maltrata o olfato:
Uma espécie de exorcismo.

Aquilo que não possui serventia
É logo expulso do corpo.
Defecar é pitoresca alegria
E um legítimo aborto;

A maneira mais fácil de se libertar
Daquilo que já não faz mais sentido.
Tudo que está, em vão, ocupando lugar,
Deveria ser logo banido.

Mas o ser humano tem uma dificuldade tremenda
De abandonar de vez o que já não serve,
Talvez por tradição, mito ou lenda,
O que é pretérito ainda se conserve.

Se cagam brancos, cagam pretos,
É porque bosta não se armazena.
Emendas são piores que sonetos,
Pois o passado também aliena.

A sábia Dercy deu o bolo e, bem acima, a cereja:
Mesmo que doa ou arda a despedida,
Por mais complicado que seja,
Livre-se das merdas de sua vida.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Marabaião

Vim embora do sertão,
Onde faz uma seca danada,
Mas não há seca pior
Que a ausência da amada...

Lá deixei meu coração,
Não aguentei o clima forte
Mas a minha solidão
Agravou-se sem meu norte.

Sem meu norte eu vim pro Norte,
Que fica mais pro Oeste,
Pouco antes do Oiapoque,
Dei adeus para o Nordeste.

Nessa saga viajei milhas
Em busca de redenção,
Quando cheguei, mil maravilhas:
Era água em imensidão.

Meu Deus do céu, que rio bonito
Outro assim eu nunca vi...
Achava que era apenas um mito
Que a gente ouve por aí.

Fixei-me nesta terra
Acostumei com o calor,
Mas ainda era uma guerra
Sobreviver sem um amor.

Pensava no meu Nordeste,
A saudade era um açoite,
Pra completar, o meu agreste
Era dormir sozinha à noite.

Chegou a Páscoa em um domingo,
Começou um novo ciclo:
Fui pro bairro do Laguinho
Na missa de São Benedito...

Nos dias subsequentes,
Muita festa e gengibirra,
Marabaixo, cachaça quente
Pra despertar alguma alegria.

Eu só na base do mé
Avistei uma saia rodada
E confesso que sou ré
Por olhar para a moça errada.

A timidez tomou de conta
Porque eu não sabia bailar
E considero uma afronta
Se inxerir sem sequer dançar.

Com umas doses na cabeça,
Consegui me soltar devagar,
Pensei: “antes que amanheça
Essa dama vou abordar”.

Já um pouco alterada,
Aproximei-me da menina.
Ela estava acompanhada,
Seu nome era Catarina.

Catarina namorava
Um brucutu metido a besta
Que chiava e não gostava
Que ela dançasse em qualquer festa.

Cada vez que ela rodava,
O mundo se rendia aos seus pés
E o ogro com a cara amarrada
A levava embora de revés.

No fim do ciclo os dois brigaram
E ele quis bater em Catarina
Os donos da casa apartaram
Quase às 6 da matina.

Ofereci-lhe uma carona
Assim que o porre passou.
Não pode vir nunca à tona
Aquilo que depois rolou.

Hoje aqui eu já me encaixo
E fiquei com minha nega.
Em noites de Marabaixo
A gente gira e se aconchega.

Ainda sinto falta do Nordeste
Mas o Norte virou paixão:
No tambor que se aquece
Entoo mais um ladrão.

Os triângulos e as sanfonas
Deram lugar ao batuque
Enquanto o Amazonas
Pororoca sem ter truques.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Matéria-Prima


Um químico explicaria
Que o ser humano é composição séria:
Somos feitos, basicamente, de oxigênio e carbono.
Um poeta como Shakespeare já diria
Que o ser humano possui outra matéria:
Somos feitos, essencialmente, de sonhos.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Infanticídio


Quando eu era pequena,
Certa vez, vi uma cena
Em um desenho que eu gostava.
Quando a geladeira fechava,
Lá ia um pinguim e apagava a lâmpada.
Eu encasquetei com aquilo por implicância
E comecei a abrir e fechar a geladeira
(Curiosidade ou brincadeira),
Sonhando desvendar o grande mistério
E quando solucionei, achei um despautério.
A partir dessa descoberta,
Veio a realidade dura
Através de uma fresta, uma porta entreaberta,
Ou o buraco de uma fechadura.
Foi-se embora todo meu encanto de criança.
Com o tempo foi-se o Papai Noel, foi-se a Fada do Dente,
O Coelhinho da Páscoa e... A esperança.
A gente cresce iludido e pensa
Que ser maduro é se deixar invadir pela descrença.
De fato, o ingênuo, aqui, não dura muito
E, se durar, é apenas caso fortuito.
Hoje já adulta e mais consciente,
Olho para o mundo
Percebendo o meu redor.
Tá tudo tão feio, egoísta e imundo
Que imagino que seria melhor
Para o bem do amor, da ciência
E também para mim
Ter continuado a acreditar na existência
Daquele franzino pinguim.

sábado, 5 de julho de 2014

Rumo a... Lugar Nenhum


Eu ouvi que milhões foram gastos
Em grama sintética e campos fartos.
Mas canto, sem nenhum encanto,
Que fui assaltada ali no canto.
Nunca vou esquecer o brilho da lâmina,
O fio do aço perto da minha garganta
Na parada do ônibus
Por algum anônimo
Em uma bicicleta
(Roubada, provavelmente).
De uma favela
Proveniente,
Fruto de uma sociedade injusta e excludente,
Todos querem ver o bandido morto
Para sambar em cima do corpo
Como se isso resolvesse tudo
(A não ser a raiva momentânea do susto).
E esse tal ônibus que pego
É o mesmo que me causa um medo cego
De passar à noite na frente do Mucajá
Temendo uma facada na jugular.
Assim, fico refém das grades
Das cercas elétricas e dos alarmes
Prisioneira em minha própria casa
Apenas para não me tornar caça.
Pergunto-me se a esperança
Por um título vale mais do que a segurança.
Sim, a gente acha uma merda
Tanto desvio de verba,
Mas compra a camisa da seleção,
Ignora o escândalo do mensalão
E a vida segue.
A pouca memória do povo se ergue
Com o comodismo de sempre
Que transforma a gente em indigente.
Preferiria mil vezes hospital e escola
Do que me contentar com um hexa de esmola.
Mas aí o Doutor Ronaldo
Diz que o mais relevante são os estádios
Em entrevistas veiculadas nos jornais e nas rádios.
E o senhor Pelé sugere que o negativo saldo
Pode ser compensado com turismo.
É ser muito ingênuo ou otário
Ou então é muito otimismo.
Aí quem protesta
Corre o risco de levar bala de borracha na testa,
Gás lacrimogêneo na cara,
E outras atrocidades que o Estado mascara.
Enquanto a barbárie vira moda,
Continua rolando a copa.
Agora tanto faz, pouco importa
A corrupção
Ostentada pelo lábaro estrelado e anil
Porque eu ganhei no bolão:
É mais um gol do Brasil.