sábado, 10 de dezembro de 2011

Soneto Natalino

Quando o Natal chega sorrateiro,
Todos se sentem tomados de perdão.
Mas ele deveria habitar o coração
Dos homens durante o ano inteiro.
Essa tal misericóridia é, então,
Só um sentimento passageiro?
Seria, portanto, verdadeiro
Esse rompante veloz como paixão?

Fogos, champagne, chester, risadas:
Uma noite completa de hipocrisias.
Depois que cada um volta a suas casas,

Fartos de um banquete de ironias,
O amor ao próximo é jogado às traças
Por mais trezentos e sessenta e quatro dias.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Nature(ale)za - Final


A cama estava vazia; os móveis empoeirados. Assim como eu, o jardim vivia de lembranças, cada vez mais confusas, abstratas e surreais. Reguei minhas esperanças que murchavam a cada dia que passava, e a lua atualmente banha as velhas estátuas, deixando-as com um tom prateado.
Já faz tanto tempo que até esqueci o rosto dela, e estou em dúvida sobre a cor dos olhos: seriam eles negros, ou castanho escuros? O que mais me preocupa é que não lembro sequer o motivo da minha espera, quão longo foi o período de ausência... A saudade é um fio tênue que a separa da indiferença. Estaria eu curada, então?
Amanheceu e resolvi fazer uma faxina. Troquei as fronhas, as colchas. Lavei a louça acumulada e a pia pareceu me agradecer imensamente. Varri debaixo da cama e encontrei o pijama dela, jogado. Deve ter ido parar lá depois de eu tê-la despido e a amado durante a madrugada inteira. Me arrepiei um pouco com a possibilidade de ter sido esse o acontecido, mas as lembranças me eram agora falhas demais para que eu tivesse certeza. Tossi com o excesso de pó. Uma aranha correu, assustada.
Depois do fim da limpeza, me senti mais leve. Como se tivessem estalado todas as minhas costelas. Abri a porta e vi: os girassóis estavam voltados para a minha direção. Eu era luz, e o sol não se incomodou dessa vez.
Não faço mais questão de retorno. Se é hora de retornar, é para o que eu era antes dela. Eu já existia e isso bastava por si só, e eu carregava o peso de minhas angústias, derrotas e vitórias sobre meus ombros nus e autossuficientes.
No final das contas, descobri que posso manter meu jardim vivo sozinha. As borboletas bailam à minha volta e a semente que germinou no meu quintal agora é outra: a do amor. Próprio.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Nature(ale)za I

 
Ela se perdia entre as flores, absorta em pensamentos. Eu a fitava, encantada, com medo até de piscar. Não queria perder a graciosidade de nenhum movimento que Ela fizesse, por mais natural que ele fosse. 
Inspirei. As rosas possuíam um perfume especial e único. Pareciam resumir em si todas as coisas boas que poderiam existir no mundo. Eu me perguntei como Ela era capaz de fazer aquilo. Formulei duas hipóteses. A primeira seria de que as rosas roubavam a fragrância dela e fixavam-na nas pétalas, porque Ela em si já era a síntese de todas as coisas boas. A segunda hipótese seria de que as rosas expeliam a condensação dos meus sonhos, como uma mágica.
Tudo era muito colorido, e enquanto eu olhava pela janela, esquecia todos os rancores e memórias ruins do passado. Ela parecia flutuar entre os trigais dourados, tais como o sol reluzente que fazia com que a pele dela brilhasse, ou melhor: irradiasse. 
Até quando eu, enfim, pisquei os olhos. 
Ela tinha virado de costas e saltitava para além do horizonte, e eu fiquei imóvel, em transe ou choque, até perdê-la de vista. As borboletas seguiram-na, e os trigais outrora dourados ficaram semelhantes à palha seca. A terra pareceu mais árida, e os girassóis estavam voltados para a direção em que Ela havia partido. O sol ficou coberto de nuvens e – não sei se foi impressão minha – de ciúmes também, pois estava sendo ignorado pelas flores que levavam seu nome. 
Senti que em breve as pragas e as ervas daninhas começariam a tomar conta do ambiente. Triste e sozinha, suspirei. Não havia cheiro algum. As rosas estavam completamente... Inodoras. Até mesmo as estátuas da fonte espelhavam minha expressão taciturna. 
Tive certeza, então, de que era Ela, apenas Ela, a criatura capaz de embelezar meu jardim novamente, porque o que o mantinha com vivacidade era a semente do nosso amor. Prometi a mim mesma que, se Ela voltasse, eu não cometeria um descuido sequer.
Os beija-flores me olharam com desprezo, mas ainda assim fiz minha prece. Eu iria regar a semente até que Ela brotasse mais uma vez em meu jardim e, é claro, em meus braços.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Morfologia do Amor

Nos livros de Língua Portuguesa, a palavra AMOR seria classificada morfologicamente como: substantivo comum simples abstrato primitivo. Vou ter que discordar.
Amor, de comum e simples, não tem nada. Se fosse simples, não faria chorar e sorrir ao mesmo tempo, tampouco ocuparia tanto nossa vida. Pode ser comum entre toda a raça humana, mas cada ser ama de uma forma única, e demonstra como sabe ou consegue.
E quem disse que é abstrato? Vejo o amor como algo palpável. Posso perceber o brilho nos olhos dos apaixonados, sentir o calor nos abraços de quem quero bem, e sou capaz de ouvir meus batimentos acelerados a cada beijo. Sim, amor é real e eu consigo tocá-lo. Ele tem o formato e tamanho que quisermos.
Concordo que é primitivo, porque foi o sentimento primeiro da Terra. Dele derivaram a amizade, a saudade, a paixão, a esperança. E eu não estou falando de prefixos e sufixos. 
Outra coisa que me intriga é: AMAR é verbo no infinitivo. Só que mesmo conjugado, esse verbo designa a ação de sentir sem fim, sem fronteiras. Portanto, independentemente da desinência, será sempre infinitivo. 
Desculpe, Dona Gramática, mas está na hora de rever alguns conceitos.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Maestria Cruel


Se minha mão encostar na tua nuca,
Apenas recebe-a em teu cabelo.
Mal sabes meu desejo de te deixar caduca,
Te agarrar e ter em meus braços nua em pêlo.
E não peça para ir devagar, não tenho dó.
Tampouco ré, mi, fá, sol, lá ou si,
Puxarei teus fios e os encherei de nó
Na maestria cruel de caber em ti.
A noite para nós não terá fim
Mas não será como se não houvesse amanhã
Já que quero sempre repetir, assim,
A mesma brincadeira toda a manhã.

sábado, 29 de outubro de 2011

Das Coisas que Farei ou Deixarei de Fazer (I)


Não gosto da ideia
De poder um dia
Dormir ao teu lado.
Apetece-me mais ainda
O termo amanhecer.
Porque contigo, meu bem,
Tenha certeza:
Farei tudo,
Menos adormecer.

domingo, 16 de outubro de 2011

Oração aos Quatro Elementos



Ar, Terra, Fogo e Água.
Venho agora pedir a vós
Que me ajudem a tirar a mágoa
Dessa minha solidão atroz.

Amei enlouquecidamente,
Ceguei-me para o senso comum,
Meu juízo ficou dormente,
E a paixão explodiu como um BOOM!

Ar, traga a respiração dela...
Compartilhar o mesmo oxigênio
É meu desejo maior; na janela
Espero com ansiedade e empenho.

Terra, puxe as pedras e grãos de areia
Para perto de mim com frequência.
Quero pisar com minhas meias
Nesse torrão que ela caminhou com inocência.

Fogo, aqueça o meu amor
E não deixe jamais que termine em poeira
Ou em cinzas teu eterno calor
Presente em sua lareira.

Água, pelo ralo venha me atingir
Após escorrer na pele do meu bem.
Se não posso estar perto, posso ao menos dividir
Tudo que ela já usufruiu do Universo. Amém.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Fantasias Sob Medida

Parceria com Luna Sanchez


Nascem fantasias sob medida
a partir dos beijos que entrecortam os sons.
Aproximam-se os mundos, as curiosidades, as vidas,
combinam-se as texturas, as formas e os tons.

Vontades se mostram semelhantes, parelhas,
letras e vozes são portais para afinidades.
Surgem luas, frios, calores e estrelas
e antes do "Até logo!" já se sente saudades.

A poesia se movimenta sedenta, fluida
em direção aos desejos e aos sonhos bons.
A linha suave une as alegrias contidas,
costura no avesso o "junto", o "perto" e o "com".

Tecido bordado com flores vermelhas
que se abrem e revelam uma nova verdade.
E a fantasia que era roupa de festa, agora permeia
a pele, vira dia a dia, fato, doce realidade.

domingo, 9 de outubro de 2011

Soneto dos nossos corpos

Intertextualidade com a música Soneto do teu corpo, de Leoni.



Juro beijar teu corpo sem descanso
Como quem se perde e se encontra.

Vou ser a teu favor, vou ser contra
No vai e vem intrépido do balanço.


Beijo-te escorada no azulejo, não canso.
Tesão no vapor, o desejo apronta...
Eu caibo em ti, o contorno aponta
E depois do prazer, um cochilo manso.


Como em teus seios, bebo ameaças,
Entre mãos bobas, mutações constantes.
Faço canções em teu corpo e me enlaças...


Línguas entrecortadas antes, durante,
Línguas compartilhadas enquanto me amassas.
Juro beijar teu corpo como amante.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A Moça e o Vento


 Há muito tempo, o vento se apaixonou.
Naquele entardecer, uma moça
No banco do parque se sentou,
Pálida tal qual porcelana ou louça.

O vento se debatia desesperado
Tentando tocá-la, em vão.
Chegou até a virar tornado
E as árvores foram arrancadas do chão.

Vendo, infeliz, que não deu certo,
O vento, enfim, virou furacão.
Queria abraçá-la, tê-la por perto,
Mas daí veio outra decepção:

O mundo se tornou um caos
Causado por tantas intempéries;
Os humanos se tornaram maus
Revoltados pelas fúrias naturais em série.

O vento então parou em um cume
E percebeu qual seria a solução:
Arejaria os cabelos da moça, e seu perfume
Restauraria a paz em toda a nação.

O vento hoje, portanto, vai e logo vem.
Fica um bocadinho, mas não permanece.
Pois o vento, tal qual o amor, vai além:
Eterniza no coração, mas no físico... Evanesce.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Navegar é preciso


Ainda que doa
Minha paixão navega
A maré é boa
O marujo não nega

No nosso convés
Fundeia a felicidade
A âncora da fé
Prende a simplicidade

E nesse navio
Eu quero sempre estar
Antes fazia frio
Na minha solidão ao mar

A bordo dessa embarcação
Termos marítimos à toa
Porque meu coração
Vai de popa à proa

Sendo barco ou nau
Não vem ao caso
A saudade é fatal
Reencontros ao acaso

Essa marinheira
É de primeira viagem
Mas é verdadeira
Ao por sentimentos à margem

Na nascente ou na foz
Algo me permeia
Percebo que é tua voz
E teu canto de sereia

À vela ou a motor
Quem guia o leme sou eu
E na ilha do amor
O desembarque é teu.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Anseio



Anseio por novos horizontes,
Novos lugares que me inspirem...
Onde toquem Marisas aos montes
E o vento possa arejar a mata virgem.

Anseio por novos jardins,
Novos olhares ausentes de medo...
Onde as mulheres usem batons carmins
E a natureza seja tema de sambas enredo.

Anseio em sair do brejo,
Novos igarapés para eu me banhar
Onde todos vivam felizes no vilarejo
E lá caiba Palestina e Shangri-la.

Anseio por tudo e anseio por nada,
Novas ideias mostram que basta querer...
Onde vou não importa, minha mente é alada
E a força da minha fé é meu maior poder.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Ciranda Erótica




Eu vi uma barata
Na careca do meu amor.
Assim que ela me viu,
Mais pra perto me puxou:

"Senhora Lara,
Sem perna torta,
E tenho tara,
Não estou morta".

A moça ouviu,
E também anotou.
Até que na barata
Enfim, ela penetrou.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Cotidiano

Intertextualidade com a música homônima, de Chico Buarque.


Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me manda um Me Liga e espera.
Eu retorno pois sou par ideal
E nosso namoro é sempre primavera.

Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar,
Me mandando uma SMS carinhosa.
Diz que eternamente irá me amar
E me beija com a boca mais gostosa.

Todo dia eu só penso em poder lhe encontrar;
Meio-dia eu só penso em internet,
Depois penso na webcam ligar
E me calo com a imagem que aparece.

Seis da tarde, como era de se esperar,
Ela me faz surpresas casuais,
Diz que está muito louca pra beijar
E nos beijamos como beijam os casais.

Toda noite ela diz pr'eu não me afastar;
Meia-noite ela me diz coisas que eu não conto...
E me convence à rotina continuar,
E me fio na esperança do reencontro.

Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode com a emergência do amor,
Me sorri um sorriso especial
E me beija com a boca que mistura nosso sabor.

sábado, 3 de setembro de 2011

Quanto tempo o tempo tem?


Quanto tempo o tempo tem?
Tem o tempo que quiser.
Porque o tempo organiza
Sua agenda a bel prazer.

Senhor Tempo, por favor,
Me ajude se puder.
Me dê alguns segundinhos
Pr'eu ficar com quem me quer.

Senhor Tempo, compreenda,
Com meu bem eu quero ter
Um cadinho de minutos
Horas, dias, e a vida se der.

Quanto tempo o tempo tem?
Tem o tempo que dispor.
Porque o tempo tem o tempo
Do tamanho do meu amor!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Prece



Meu peito padece
Enquanto anoitece
Você não aparece
E quando amanhece
Você me esquece
O frio me amortece
Você não me aquece
Atenda minha prece
Pra que a solidão cesse
Você diz que não parece
Mas quero quem me estremece
Antes que minh'alma engesse
Cansada da tristeza que permanece

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Show sem Bis


Não chore, meu bem, ao me ver partir.
Saiba, amor, que não foi porque eu quis!
Mas sei que a melhor coisa que fiz
Foi não fazer barulho ao sair...

Não sou ingrata como você diz,
Apenas desisti de resistir.
Se você não consegue, eu sei decidir
E nesse show não haverá bis.

Abri a porta com cuidado,
Passos no silêncio e na surdina.
Aprendi que só se ama e se é amado

Não quando se mima ou se nina...
Mas quando se acorda assustado
Ao notar que não está mais lá sua menina!