domingo, 12 de julho de 2015

E-mail



Se tu me amas, ama-me no privado
Não o compartilhe por meio de status
Deixa em paz teus seguidores
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem discretamente,
Amada,
que a vida é breve,
o amor é breve,
e um tweet mais breve ainda...

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Nos braços de Morpheu


Invado teu sono na tentativa vã
de descobrir se sonhas comigo.
Permeio planícies longínquas,
jardins repletos de flor,
países com línguas mortas...
Omnia vincit amor.
Tu, que és a quimera
que mora em minha onírica realidade:
delírio do dia-a-dia.
Quantos pesadelos constroem a metamorfose
de um t(r)emor noturno?
Paralisada me deparo, de olhos abertos e taciturnos,
ao enxergar sem ar:
mais que parte fantasiosa do subconsciente...
Tu és por si só toda a minha vida.
Não consegui saber se sonhas comigo,
mas te vi abrir um sorriso
em meio aos primeiros raios da manhã.
Portanto, amanhã
continuarei vasculhando
de canto em canto um espaço
para ser sempre motivo
das tuas alegres pálpebras se abrirem
junto com as janelas da casa
e o habitual aroma de eucalipto.
Cotidiano rito...
Se tudo enfim se ajeita,
deixa eu ser essa luz
que entra pela fresta estreita?

domingo, 7 de junho de 2015

Tocar o Só(l)


Desci do ônibus. Havia marcado com uma amiga na frente do shopping. De lá, iríamos a pé para algum bar, comemorar meu aniversário atrasado. Esses rituais de passagem não me agradam, mas fazer o quê… As pessoas têm essa necessidade de celebrar, então o que resta é me adequar. Cheguei ao local combinado e ela não estava, ligou dizendo que se atrasaria um pouco.

– Faltou luz aqui no bairro.

– Tudo bem, eu espero…

Aguardando num alicerce ao lado do Bob’s comecei a olhar a meu redor. Pernas apressadas. Calças coladas. Piercings no nariz. Bonés de aba reta. Camisas de basquete. Todos eram iguais. Uma multidão de semelhantes. Uma confusão de cores. Senti-me tonta ali. Não havia outra paisagem. Eu era um ponto negro perdido e escorado em uma coluna.

As vozes se confundiam e apenas uma ou outra palavra se fazia inteligível. Falavam (f)utilidades. Foi então que ou(vi): uma melodia vinha em meu encontro para me fazer fugir dos sussurros daquela plateia de pessoas idênticas: um trompetista tocava.

O trompetista estava lá, de chapéu Panamá e eu cá, vidrada naquele ser humano, talvez o único capaz de me compreender um pouco ali. Ele executava com maestria o repertório e, transitório, era notório que ninguém o notava. Os meninos beijavam meninas. Os meninos se abraçavam entre si. As meninas riam entre elas. E o trompetista estava estático, invisível a esses olhos, assim como eu.

Percebi que o trompetista dividia comigo a mesma solidão, dessa que faz a gente não se sentir em casa. Como se o mundo fosse espaço alugado, não uma morada. Esbarraram em mim cinco vezes, eu contei. Ninguém pediu desculpas. Não há motivo para pedir perdão de quem não se pode ver, muito menos enxergar. Ninguém se sente mal por quem simplesmente não existe.

Tudo que eu queria era que minha amiga chegasse logo…

O trompetista deu a nota sol, tão só que pude quase visualizar o dueto dele com a própria Solidão. Quando ele deu um dó, também me deu dó por não estar com meu violão.

O trompetista me fez companhia naquele sábado à noite e dividiu comigo o mesmo sentimento… De não pertencimento, de ser um estranho no ninho. Isso me arrancou outro sol: sol-riso.

Quando minha amiga enfim apareceu, dei moedas ao músico na saída, não que rodelas com valores estampados resumissem minha gratidão. Peguei no ombro dele e disse:

– Obrigada.

Acho que ele entendeu e respondeu com um olhar tão cheio de ternura que encarei como se fosse um “de nada”. Foi o encontro de solidões mais bonito que eu já tive.

Segui para o bar com minha amiga. Bebemos e rimos. Continuei vazia. Soube que minutos depois que fomos embora, ocorreu um arrastão dentro do shopping. Uma outra amiga minha que trabalha lá me contou. Inclusive, ela teve que guardar mil reais que estavam no caixa dentro do sutiã.

Escrevo esperando que o trompetista que desconheço o nome esteja bem. E no fundo, também nutro a expectativa de que um dia, conseguiremos encontrar algo que nos preencha, dê asa, e um lugar especial no mundo para ser nossa casa.

sábado, 30 de maio de 2015

Maracá


Maracá, xuatê.
Maracá-cunani:
Legado que nunca
Irá se extinguir.
Civilização
De imortalidade
E perpetuação;
Tupi,
Somos filhos
De uma só tribo
Guarani.
Somos todos um só povo:
Uma só prece,
Um só coro.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Dança das Águas


A história de Diana
Durou poucos invernos
E sua alma cigana
Inspirou trovas e versos
Como estes que agora vos canto
Ao sustentar o peso dos anos
E dos danos.

A jovem virgem
Bailava desnuda
Nas noites de luar em vertigem.
Lâmina pontiaguda,
Nas águas como veio ao mundo,
Ritual particular fecundo.


Se havia de sangrar,
Dançava sombria e escarlate:
Nos gélidos lagos um traço carmim a deixar.
Rodopiar com Hécate
Cirandar com Perséfone
Valsar insone.

Diana, acusada de bruxaria:
Dedos taxativos, línguas acusativas,
Alvo dos olhos em piromania:
Amordaçada, queimada viva.
Fogo, chama, labareda
Consumindo o vestido de seda.

Túnica tornara-se cinza;
A morte ceifou a magia;
Órion acolheu a ninfa.
Madrugada fria:
Ainda se vê um rastro vermelho
(Naquele mesmo lugar goteja sangue fresco).

terça-feira, 28 de abril de 2015

9090

Parceria com Adriano T. Mira


Quis ligar de algum telefone desconhecido.
“Ela não costuma atender números privados”, pensei a esmo.
Mas aí lembrei que o maior desconhecido
Era eu mesmo.

Às vezes procuro por pessoas que não fazem parte de mim.
Mas a maior falta é de mim mesmo.
Fico a olhar a tela do telefone na esperança dela retornar,
Mas lembro que nem uma mensagem enviei.

Me perco entre números na esperança de ter digitado errado,
Só para não estraçalhar a esperança.
Fecho os olhos, sim: é ela que me vem linda e suave.
Meu peito não suportaria ter que terminar outra conversa.

O telefone na mão suando e tremendo.
O coração acelera a cada vez que penso em discar. 
Os dedos encostam nas teclas,
Mas a força me falta.

Depois de tanto tempo, o que ainda há para se justificar?
O erro não pode ser consertado.
O que resta é me conformar
Com os fracassos aos quais estou fadado.

A mera vontade não me deixa mais digno de mérito.
Ainda que ela atendesse, eu ficaria mudo do outro lado da linha.
Para evitar meus fantasmas, sequer ponho crédito:
Me amarro às memórias da voz que ela tinha.

As lembranças frequentemente surgem para me cobrar
Pendências mal resolvidas de um passado presente.
E se, talvez, eu ligasse a cobrar?
A saudade é urgente.

Mas vejo que, neste momento,
Me tornei apenas uma imagem borrada.
As respostas só são dadas aos poucos pelo Tempo
E o silêncio fala melhor que qualquer chamada.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Revel(ação)


As certezas só surgem no fim.
Todas as obscuridades se esclarecem, enfim.
A missão da omissão encerra:
concluída com sucesso.
A mentira se enterra,
a guerra entra em recesso.

As crises terminam,
tristezas germinam
e a vida segue;
cada caco se ergue.

Há um teorema
de que todo poema
nasce de uma epifania.

Qualquer verso é um pedaço de coração.
A reação é uma estrofe:
Let's drink some coffee...

Contemplar uma dolorida confissão
é a chave para a libertação.

A verdade é que a poesia
é parida pela verdade.

terça-feira, 31 de março de 2015

Piel



escrevi com a ponta dos dedos
por entre tuas curvas e linhas
uma invisível tatuagem:
[minha].

sábado, 28 de março de 2015

Conflito Interno


Eu queria tanto um disco original da Björk...
Férias em Nova York
cantar em uma banda de rock
ou até coisas bastante banais.
Mas entre meus sonhos mais profundos,
que ultrapassam meras vontades carnais,
existem os bem vagabundos
e agora enumero os tais:
parar de sentir fome
e desejar comer algo que nem sei o nome;
ou ter saudades
do que ainda não vivi
como se estivesse banhada de tempestades
sendo que nunca chovi.
Planejo um dia também não nutrir ciúme
de algo que nem é meu...
este feio costume:
prender o que não se perdeu.
Pessoas não são propriedade
e essa posse é mera ilusão.
Não há título de terra para a liberdade,
tampouco hectares no coração.
Esses projetos estão no papel
e sei que executarei um por um.
Mas no momento meu apetite cruel
atacou sem motivo nenhum;
a nostalgia veio e não sei o que me falta.
Precisarei procrastinar por mais um dia...
Eis que uma imagem aos olhos ressalta:
POR QUE VOCÊ CURTIU A FOTO DAQUELA VADIA?

sábado, 21 de março de 2015

Paradox


Meu olhar carrega um peso triste.
Isso não quer dizer que eu nunca seja feliz.
Às vezes, a Alegria me visita, toma chá e assiste
como dissolvo na xícara meu sachê de anis.
Da mesma forma que chega, ela parte.
Admiro o quadro torto na parede.
Ponho para tocar Love will tear us apart
e, com o volume máximo, deito na rede
ao som de Joy Division.
Acho que escolhi ser assim...
It was a hard decision.
A moldura permanece enviesada:
não a arrumei porque não aprecio a perfeição.
Se todas as coisas fossem impecáveis, seríamos nada:
perderíamos a bênção da evolução.
Dizem por aí que minha aura é azul,
e talvez essa seja a natureza de minh’alma:
that's why I'm always so blue

- e confesso que isso me acalma -:
Os meus olhos caídos
acompanham um semblante
de forçosos sorrisos.
Entretanto, não me considero farsante.
Ponho as contradições na mochila
e esta é minha mais sincera arte:
se por acaso a boca não acompanha a pupila,
it’s because I have a jolly face and a melancholic heart.

terça-feira, 17 de março de 2015

Cânone


Descobri que o amor
possui uma essência:
sua matéria-prima
é a desistência.
Sim, o amor é elemento
constituído de uma molécula
levada pelo vento:
em determinada época,
compõe-se o deixar-partir
apesar do desejo
de insistir.
Em cada átomo, um solfejo;
a canção da despedida
ecoa em um buraco negro:
o segredo
da partida.
Coro de apenas uma voz:
a soprano que resta
entoa a sós
uma melodia funesta:
o que sobrou de nós.
A partir disso, nasce a substância
batizada renúncia,
formada pela ressonância
do adeus e sua pronúncia.
O amor que surge do sim
atinge seu verdadeiro conteúdo
quando abdica o próprio uso
e chega ao fim.

terça-feira, 3 de março de 2015

Fight


No ringue, jazia;
luva vazia
de um tapa sem mão.
Um soco no estômago
levou-me ao chão
e no primeiro round
já sofri um nocaute.
Peso pena,
que pena!
Não sou grande
o bastante:
nunca fui boa em lutas,
competições e disputas.
Entre meios e fins...

Saudade wins.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Imemorial

Para Laira T.


eu queria tanto te fazer um poema
ou algo que pudesse eternizar o que sinto
(desde quando ditongo aberto tinha acento e ainda se usava trema)
mas toda vez que tento me lembrar das tuas lacunas
- mistério nunca extinto –,
sou tomada de ausências inoportunas:
entre todas as coisas em ti que me servem de inspiração
me falta o léxico e sou tomada por um vazio:
o vazio dos apaixonados.
não me entenda errado,
pois esse vazio é causado
pelo impacto daquilo que me assola;
a surpresa é um coelho sendo tirado de dentro da cartola:
só existe o desejo de contemplação
e eu permaneço, contra minha vontade, estática.
mas me vendo imersa em tanta ternura
joguei fora a gramática.
reservei um tempo para tirar palavras do indizível
perdidas em meio aos teus silêncios
e meu próprio espaço intangível.
talvez isso nem seja um problema, afinal;
foi como descobri o amor: longe, distante, calado.
nunca precisei pronunciar, sabia que estava ali por bem ou por mal,
aparentemente camuflado
e hoje? aflorado.
tulipas espalhadas na rotina do que se guardou,
um baú de acúmulos: anos-bola-de-neve
e essa é apenas a ponta do iceberg.
as calotas polares derretem e eu sigo te amando
Titanic afundou e eu continuo te amando
Julieta morreu e nada mudou
e se amanhã eu morresse também... mesmo assim não seria diferente.
então finalmente entendi que amor é calmaria
por tudo que me ensinas dia-a-dia
e nesse sentimento maduro
eu (per)duro
passe o tempo que for,
foi, é e sempre será amor.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Ethereal


há uma citação de Scott Fitzgerald...
there are all types
of love in this world
but never the same love twice
.
amores são sempre tão plurais
e singulares em cada recomeço...
basta dar adeus aos ais
abrindo chance para virar-se do avesso.
amores vêm e vão:
alguns resistem aos empecilhos,
outros ficam retidos em algum vão,
uma fresta, lapsos temporais presos em estribilhos
de poemas nunca publicados,
pelo chão espalhados,
por toda a casa;
casa esta que está impregnada
do aroma de antigos buquês de flores
e das lembranças de cada namorada.
eis que entre todos os amores,
um único é o amor de sua vida:
o dono da mais úmida lágrima derramada,
durante meses contida,
na resistência de aceitar a perda da amada.
em meio a esse processo
é perdoável qualquer excesso:
quando dizes se cuida,
no fundo ainda quero ser cuidada.
a tal tristeza é comprida,
cumprida fielmente e a cada dia
crescida na esperança de ser curada.
de todos os amores que tive,
em apenas um me detive:
o amor que se perpe(tua).
em mim há a absoluta certeza
de que serei permanentemente tua

e essa é minha maior fra(n)queza,
porque sou livre e mesmo assim sigo na contramão
ao ser ciente
de que meu efêmero coração
te pertence
eternamente.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

He Wolf


o homem é o lobo
de si mesmo
e depois torna-se corvo
que devora a própria carniça.
faz-se de isca
com a carne exposta
de barriga para cima
ou de costas
com ambição e ganância
na ânsia
de uma armadilha.
mas a tocaia que arma
é uma montagem macabra
e na cena do crime:
autodestruição.
ainda que não rime,
ao perfurar um pulmão,
puxa-se o tapete do outro.
o homem-urubu
com sua carcaça
come cru
sua putrefata alma
no ledo engano
de sair ganhando
no terreno plano.
gasta os ossos
em cortes profundos.
as hienas degustam
o sabor do homem
com sais minerais,
numa taxonomia de espécies
sujeitas a todas as intempéries
enquanto ele é ao mesmo tempo
um filo de vários animais
vivendo num habitat de sofrimento
desde os mais antigos ancestrais.

sábado, 10 de janeiro de 2015

I'm a Mess


Certa vez li em algum lugar que todos temos uma galáxia dentro de nós. Concordo. Entendo que somos um universo individual habitando um universo coletivo. E estamos, de alguma forma, interligados. Eu sempre quis compreender o universo dos outros.

Eu olho a senhora carregando sacolas com as compras do supermercado e fico imaginando se é viúva, ou se perdeu algum neto para as drogas. Vejo o moço de olhar melancólico e me pergunto quantos corações ele já partiu e se o coração dele já foi partido alguma vez. Acho que quando se quebra o coração de alguém, é como se também quebrasse a alma dessa pessoa, um reflexo de cristal que ao cair ao chão, se espatifa então. O erro do moço foi o mesmo erro meu. Entregar o cristal para alguém cuidar. No fim, sobram alguns cacos para juntarmos e tentarmos nos reerguer. Entretanto, enquanto outras mãos segurarem tal frágil pedaço remendado, sempre faltarão certas partes. Hoje o moço e eu somos cacos mínimos, pequenos demais para novamente serem jogados no azulejo. Um dia não existirão mais cacos, apenas partículas invisíveis ao olho nu.

Do pó ao pó, em cacos de vidro.

Ainda percorro todo o cenário. O homem de paletó... Será que é casado? É sim, tem uma aliança. Será que é feliz com a profissão que escolheu? Não sei, paletó não parece ser muito confortável, meu pai não suporta usar. Isso me fez lembrar o quanto eu gostaria de ter uma gravata borboleta. Meu sonho de consumo.

Nesse fenômeno de ver o ser humano como uma Via Láctea fragmentada, recordo do cigano que me contou sobre Órion e me apelidou de "Azulada". Azul, minha cor favorita. Todos somos constelações despedaçadas e, quando amamos, somos o espelho do céu nas águas. Inundação, enchente de estrelas cadentes na Terra. Por isso que o Amor transborda, pela infinitude de nossas imensidões destruídas.

Outro dia Ela me deu uma estrela. Foi o melhor presente que já ganhei.

- Vê aquele pontinho brilhante ali?
- Sim.
- Se prestar atenção, vai ver que na verdade são duas, bem próximas uma da outra. Eu vou dar uma delas pra você, acho que não poderia escolher alguém melhor.

Eu agradeci. Perdi a conta de quantas vezes disse "obrigada". Dividir universos, unir versos em uma noite preenchida com a timidez da lua. Ela continuou dissertando sobre o cosmos.

- Sabia que muitas estrelas que estamos vendo hoje não existem mais?
- Não! Como assim?
- Algumas já morreram.

Fiquei impactada com essa informação. Depois fui ler a respeito. O que vemos é o passado de oito mil anos atrás. Então todo esse lábaro é uma fotografia anos-luz distante? Apenas um espectro? Que notícia fantasmagórica. Descobri que não, elas existem, e o que enxergamos são estrelas de diferentes épocas. Mas no fim, se fosse verdade, faria sentido, pois a vida é assim: só o que resta de bonito para olhar com devoção são meras lembranças. E o que sobra é o fato de sermos pó. Sejam cacos de vidro. Pó de estrela. Cinzas.


O corpo, portanto, é esse invólucro que nos afasta da eternidade, transformando-nos em matéria. Galáxia engarrafada.

Mais que neblina, nebulosa. Eu tenho medo de explodir. Seria uma chuva, não morte. Quem sabe esse sim fosse meu real e memorável nascimento: nada fúnebre. Sideral.

Se um dia isso acontecer, continuarei existindo. Sendo assim, sem cápsula nenhuma, o que sempre fui.

Caos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Timing


cheguei três minutos atrasada.
quando vi, já tinha passado.
fiquei na parada
com 2,10 bem trocado
esperando, com o dinheiro na mão,
a próxima condução.

cheguei dois amores depois.
quando vi, já havia findado.
fiquei a sós quando deveria ficar a dois
com um coração machucado
esperando, com a solidão
alguma desculpa ou explicação.

eis que o tempo é feitor de desencontro
cupido às avessas
até além do ponto.
brincadeiras travessas
da eternidade
que testa quem consegue agarrar uma oportunidade.

eis que a oportunidade é noiva em fuga
lua de mel frustrada,
até nasceu uma ruga.
chance alada
da vida
que teima em nunca apresentar a entrada, apenas apressar a saída.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Met(amor)fose


Quando me perguntam se ainda te amo
Não sei muito bem o que dizer.
Acho o questionamento incômodo, mas não reclamo, 
Estou começando a construir o que responder.

Existem duas pessoas que são uma só:
Uma é quem tu te tornaste. 
A outra, é com quem me relacionei e agora é pó,
Graças às mudanças que realizaste.

Essa pessoa de um cotidiano não tão remoto
É de quem eu guardo o máximo de carinho possível,
Que de vez em quando recordo por alguma foto,
Antes de ter ficado tão irreconhecível.

Amo-te, pois, por nossa história, 
Dos dias de chuva em que dançavas de camisola, 
Pelas vezes que cravaste em minha memória
Um sentimento pleno que hoje é esmola.

Amo-te, sim, pela bela lembrança
Das tardes de sol em que ensaiavas piano,
Pelas vezes em que pus no dedo tua aliança
(Um eterno e frustrado plano).

Amo-te, dessa forma, pela recordação bonita
Das noites abafadas no quarto escuro
Em que, à meia luz, te vi despida
Nas sombras em relance de um corpo quase maduro.

Amo, portanto, os cafés da manhã
Que tomávamos junto a meus pais.
Quando, por diferenças milimétricas, me chamavas de anã
E me abraçavas trazendo um oceano de paz.

Amo-te por teres me apresentado um novo conceito
E me inspirado para tantos contos,
Crônicas, poemas, e até um soneto
Perdido em meio a vários desencontros.

Amo-te, enfim, para sempre,
- Mas a pessoa por quem me apaixonei e abriu minhas portas de aço -.
E quem sabe um dia, de repente,
Eu consiga outra vez enxergar algum traço.

Amo, assim, o passado
De uma outrora saudosa.
No presente, duas estranhas e um coração quebrado
Sendo remendado de maneira forçosa.

Amo infinitamente o pretérito
De algo que já acabou:
Quando te vejo, sussurro sem mérito:
Now you're just somebody that I used to know.