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quinta-feira, 23 de abril de 2020

Embaraço


Ser lésbica nunca é confortável.
É até aceitável, no silêncio do armário da cidadã que não levanta bandeiras e recolhe impostos.
Há sempre um incômodo que gravita em torno, que faz terceiros se ajeitarem na cadeira e estalarem os pescoços.
Algo fora do lugar. Algo inconveniente e embaraçoso, escondido em um sorriso amistoso.
Por causa dessa atmosfera, cheguei a encolher e minguar todo o meu sem-fim.

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No primeiro encontro, quero beijá-la. Mas nunca a beijo logo de cara. Nunca sem averiguar previamente e olhar para os lados, à espera que a rua fique vazia e escura. E estar com ela é meu maior ato de bravura. Por isso que quando vamos para o quarto, as luzes ficam acesas, pois é quando podemos nos ver com clareza.
No segundo encontro, observo os mendigos da praça. Não há ameaça. Posso beijá-la mais uma vez no intervalo da troca de turno entre os guardas. E sigo tocando-lhe as coxas nos interstícios sem pedestres e transeuntes. No final do dia, juras e abajures.
No terceiro encontro, aguardamos o caminhão do lixo passar. Evitamos circular por entre os canteiros de obras. Na frente dos armazéns e bares, impropérios. Mas andar por terrenos baldios também é ainda mais perigoso. E seguimos intercalando por grilos taciturnos e cantadas baratas, de acordo com o movimento da cidade.
Jamais fico sabendo se haverá um próximo rendez-vous, ou se será o último. Este é o critério para tê-la: o mistério.

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Minhas mãos suam. De excitação. E medo. Excitação por estar de mãos dadas. Medo por estar de mãos dadas... com ela.
Se tenho vergonha de ser lésbica? Não. Entretanto, não desejo que ela sofra consequências por me querer de volta. E nós nos conhecemos tão bem, pois o amor entre mulheres estabelece uma comunicação só pelo olhar: carregamos juntas o suor das mãos, o suor de excitação e medo. E esse era o nosso segredo.
Ou nós achávamos que era.
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Esse mesmo olhar, essas mãos suadas, que eram confidência recíproca, também foram confissão. Quanto mais calávamos, mais revelávamos. Através da troca de soslaios clandestinos no churrasco da família, a quem fui apresentada como colega da faculdade. No supermercado, quando mantínhamos uma distância regulamentar de alguns passos. No trabalho, quando ia deixá-la uma esquina antes. Durante os durantes, deslizes e pistas de um crime inexistente. E então, quando a mudez propositada ficou insuportavelmente audível apesar de nossas estratégias de mascaramento da verdade, vieram interrogatórios e julgamentos e toda a lonjura que sempre nos impusemos se tornou afastamento compulsório. O tempo perdido em encobrir para todos e descobrir entre cobertas e lençóis foi em vão. Desperdicei a plenitude em uma esperança de proteção, no intuito de poupá-la. Todavia, não há escudo para o alvo.
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Não me importo com o que pensam de mim. Mas evitei vê-la com dedos apontados para si. Só que ser lésbica nunca é confortável.
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A zona de conforto é uma falácia com prazo de validade, sobrevida em felicidade-de-pequeno-porte. Uma zona de conforto permanente é acompanhada de uma sentença de morte.
Basta. Comecei a ser bastante.
Agora vivo sendo inoportuna.
Pedra no sapato.
Sapatão.

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