sábado, 5 de julho de 2014

Rumo a... Lugar Nenhum


Eu ouvi que milhões foram gastos
Em grama sintética e campos fartos.
Mas canto, sem nenhum encanto,
Que fui assaltada ali no canto.
Nunca vou esquecer o brilho da lâmina,
O fio do aço perto da minha garganta
Na parada do ônibus
Por algum anônimo
Em uma bicicleta
(Roubada, provavelmente).
De uma favela
Proveniente,
Fruto de uma sociedade injusta e excludente,
Todos querem ver o bandido morto
Para sambar em cima do corpo
Como se isso resolvesse tudo
(A não ser a raiva momentânea do susto).
E esse tal ônibus que pego
É o mesmo que me causa um medo cego
De passar à noite na frente do Mucajá
Temendo uma facada na jugular.
Assim, fico refém das grades
Das cercas elétricas e dos alarmes
Prisioneira em minha própria casa
Apenas para não me tornar caça.
Pergunto-me se a esperança
Por um título vale mais do que a segurança.
Sim, a gente acha uma merda
Tanto desvio de verba,
Mas compra a camisa da seleção,
Ignora o escândalo do mensalão
E a vida segue.
A pouca memória do povo se ergue
Com o comodismo de sempre
Que transforma a gente em indigente.
Preferiria mil vezes hospital e escola
Do que me contentar com um hexa de esmola.
Mas aí o Doutor Ronaldo
Diz que o mais relevante são os estádios
Em entrevistas veiculadas nos jornais e nas rádios.
E o senhor Pelé sugere que o negativo saldo
Pode ser compensado com turismo.
É ser muito ingênuo ou otário
Ou então é muito otimismo.
Aí quem protesta
Corre o risco de levar bala de borracha na testa,
Gás lacrimogêneo na cara,
E outras atrocidades que o Estado mascara.
Enquanto a barbárie vira moda,
Continua rolando a copa.
Agora tanto faz, pouco importa
A corrupção
Ostentada pelo lábaro estrelado e anil
Porque eu ganhei no bolão:
É mais um gol do Brasil.

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