quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Restos


I

Ainda há um pouco de ti pela casa:
A escova de dentes perdida,
O chinelo roído na entrada
E a lembrança da despedida.

Ainda há um pouco de ti em cada beira:
O fio de cabelo no banheiro;
O termômetro na geladeira;
E no quarto, teu cheiro.

Ainda há um pouco de nós no travesseiro:
A gota circular no colchão,
O brinco perdido no meio
E na cama, solidão.

Ainda há um pouco de ti nas cadelas:
A espera pelo habitual cafuné,
O prato de ração delas
E as orelhas em pé.

Ainda há um pouco de ti no jardim:
As flores que um dia regaste...
A rosa, orquídea ou jasmim
E o balde sem haste.

Ainda há um pouco de ti na cinza das horas:
O segundo de carência,
O minuto de histórias,
E essa abstinência.

II

Ainda há um pouco de nós em nós:
O choro contido no ônibus,
A confissão passada a sós
E os silêncios tristonhos.

Ainda há um pouco de nós no próximo:
O ombro sincero de algum amigo,
O falso que está julgando ótimo
E o pesar que ficou comigo.

Ainda há um pouco de mim em ti?
A esperança de um retorno?
O retrato meu que sorri?
E algum penar morno?

Ainda há um pouco de ti em mim:
A aliança guardada na bolsa;
A mensagem antes do fim
E essa saudade, moça.

Ainda há um pouco de mim em mim:
O pouco que já não é mais nada.
O pouco que hoje jaz, enfim,
E a tua ausência, amada.

7 comentários:

Carlos Marcos disse...

Muito bomn. mesmo. Lindos versos. Gostei muitíssimo. Parabéns

Genniffer Moreira disse...

:) Lindo, simplesmente um dos melhores poemas de sua autoria, na minha humilde opinião.

B. disse...

Há algum tempo não encontrava textos mais longos seus. Confesso que eles me envolvem a cada linha. Sou fascinada pela maneira como escreve. No mais, queria ressaltar estes versos, que tiveram o poder de despertar alguma recordação em meu interior: "Ainda há um pouco de ti na cinza das horas:
O segundo de carência,
O minuto de histórias,
E essa abstinência."
Lindo poema!

Ana Andreolli disse...

A gota circular no colchão,
O brinco perdido no meio
E na cama, solidão.


ouch!

Elisa Cunha disse...

Quando ainda há tudo, e mais a falta...
uma beleza de poema, cheio de sentires.

muito bom!

Pâmela Cristina Ribeiro Ferracini disse...

Nossa! meu segundo poema favorito de ti. Amei muito.

Veronika disse...

Simplesmente lindo! DEMAIS! :)
Adoro a maneira agridoce como te expressas. Traduzes muitos dos meus sentimentos!

Bjs.