A Elizabeth Bishop
quinta-feira, 5 de dezembro de 2024
Uma arte
Obliterar
Uma chuva de granizo em Tartarugalzinho.
Um tatu com o casco quebrado repousa — paralítico — no acostamento da rodovia.
Uma barata envenenada agoniza no ralo.
Uma borboleta — em meio ao panapanã —
se despedaça no vidro em alta velocidade.
Uma infestação de besouros invade o município de Amapá em busca de luz elétrica.
Um cachorro manca na calçada.
Um jabuti queima as patas no asfalto.
Um canário canta triste na gaiola da loja de ervas e produtos naturais.
Um bicho-preguiça se engata nos fios do poste.
Fáustica falácia ou prometeica promessa?
Toda criação
É aniquilação.
domingo, 30 de junho de 2024
Cartografia
no mapa
do teu corpo
não trouxe naus
para descobrimentos
[nem invasões
apenas deixei as velas
a favor dos ventos
furacões
me guiaram
até onde querias
que eu chegasse:
no cais
em que minhas certezas
Urbe
Gosto de casas inacabadas.
São mais bonitas do que as casas bonitas
— e financiadas —.
sem convenções de condomínio, sem normas,
há algo a ser terminado, pendente
[a memória das últimas gerações e reformas.
Entre olhares cínicos,
do vizinho, do síndico
casas de condomínio
parecem laboratórios de exames clínicos.
Jamais conhecerão o mistério dos bairros,
onde uma mansão de dois andares
convive com uma casa de madeira
e na outra rua já estão as pontes
de uma área de ressaca
caixotes de feira
academias
paradas de ônibus
farmácias.
As fachadas beges da higienização social
não compreendem a multicromática desordem das promoções da Maranata.
Tijolo e reboco dividem lugar com
Correios
caramelos
testemunhas de Jeová
praças abandonadas
nas quais a galera se junta pra legalizar.
Os bairros têm lixeiras viciadas
não têm quadra de tênis
não têm portaria e nem câmeras
mas têm as melhores padarias
e batedeiras de açaí.
Em cada esquina
Lambe
grafite
minibox
cinquenta tons de cinza
e segredos noturnos.
Uma explosão cósmica origina o espaço.
Erigir a beleza no improviso.
A vida não é planejada.
Gosto de casas inacabadas e de bairros:
construções da organicidade.
domingo, 27 de novembro de 2022
Sertanejo trágico
Inventa que tá saindo desse relacionamento
Mas eu tô sabendo que você só quer fugir
Fugir, fugir de mim
E meu ouvido diz duvido, duvido, duvido
Vai namorar comigo, sim!
Ciúme não
Excesso de cuidado
Não paro de pensar nela
Tô passando na frente da casa
Se algum vizinho me denunciar, a culpa é dela
De ex-namorado agora eu tô virando suspeito
Não adianta tentar se esconder
Porque sempre vou te encontrar
Vou andar colado em você
Onde você for eu vou estar
Tem uma câmera no canto do seu quarto
Um gravador de som dentro do carro
Whisky nela, que ela beba, ela libera
Eu vim acabar com essa sua vidinha
Poema construído a partir das seguintes letras de música: Vidinha de Balada (Henrique e Juliano) | Meu Anjo (João Neto e Frederico) | Empurra Whisky Nela (Bruninho e Davi) | Ciumento Eu (Henrique e Diego part. Matheus e Kauan) | Então foge (Marcos & Belutti) | Casa Amarela (Guilherme & Santiago)