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domingo, 9 de setembro de 2018

Verbete



Tu és quase-ser-mítico
figura eternizada pelo tempo
desejo ilícito
prólogo da ciência:
és instante.
Momento.
Resultado de imagem para poesia verbete
Tu és quase-lenda
- passada geração a geração -
que abre uma fenda
entre múltiplas dimensões:
és portal.
Invenção.

Tu és quase-metáfora
fogo fátuo que não queima
catarse que explora
recônditos da consciência:
és seiva.
Néctar.

Tu és quase-musa
Marília de Dirceu
de Pitágoras, hipotenusa
palavra-linguagem:
és lírico (eu?)
Poesia.

sábado, 1 de setembro de 2018

Sacrilégio

Resultado de imagem


Este poema é um pedido de perdão
a todos os outros poemas
que já desperdicei
amassei
apaguei
deletei
& joguei fora.

Em cada inefável aurora
minha culpa se multiplica
pela subtração arbitrária
de textos
liras
sonetos
silenciados pelo ego.

Ao julgar a qualidade
ou a falta dela
diminuo a mim mesma:
cada poema no lixo
equivale a menos um dia de vida na Terra
ou um dia a mais de penúria no inferno?

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Regresso

Cambaleante em meio às folhas,
meus pés vagueiam sem direção:
penso na morte como uma prece
[um momento de redenção]

não quero ser pó, tampouco fóssil
que petrifica sob a terra
que gera metano para o solo
[pedaço podre que se enterra]

sonho em me tornar algo mais útil
[quiçá eu tenha tamanha sorte]
amenizar as tardes de abril
no calor do hemisfério Norte

desejo dar flores aos namorados
e sombra para as crianças
ter tronco forte e que nenhum machado
me corte o fio de esperança

de segurar um bonito balanço
e gerar frutos aos que têm fome
e acolher em um domingo manso
os casais que vêm eternizar seus nomes.

Não me permito regressar ao nada
se posso fazer-me semente
e, dos pássaros, morada...
Cansei de ser gente:

Quando morrer, hei de ser árvore.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Boicote

Resultado de imagem para autossabotagem


se nada der certo,
eu vou ficar feliz:
é essa autossabotagem
que eu sempre quis.

se falhar é o correto,
planejo o meu fracasso...
o medo me paralisa
no tempo e no espaço.

melhor dar um fim
antes de começar;
melhor renunciar ao sim
antes de negar.

se termina em tragédia,
escapo devagar.
cuidado com a dúvida!
fujo sem sequer pensar.

se vivo ou se congelo,
não sei como lidar.
só preciso de certezas,
porque sou meu próprio lar.

melhor evitar a dor
antes dela se manifestar.
melhor (re)frear o amor
antes dele acelerar.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Roldão

Resultado de imagem para disorganized

este é um poema torto
ou, quem sabe, um poema sem forma
este poema é dedicado a todas as coisas
que nunca consegui organizar
dentro de mim

este poema é um quarto bagunçado
em visível caos
mas que, apesar da desordem,
encontro às cegas aquilo que preciso

este poema é sobre a (não) necessidade de arrumar
o que quer que seja
para ninguém além de nós mesmos
[quem quiser nos visitar que se acostume com a baderna]
também é sobre se aquerenciar
com os quadros enviesados na parede

este poema é uma ode à balbúrdia
à algazarra que me habita
e à indolência que me circunda:
a limpeza para terceiros.

este poema é sobre o alheio
sobre o estranho, sobre o outro
cuja anarquia também é própria
e não me diz respeito

este poema é, enfim, barulho;
uma confissão em tons de tumulto:
este poema é sobre sinônimos
que refletem nossa confusão interior.