sábado, 15 de setembro de 2012

Mendicância


Beijar-te-ei as pálpebras. Sim, as pálpebras! Existe algo mais singelo que beijar os olhos de alguém? Duvido muito que exista maior demonstração de intimidade. Tocar-lhe-ei os cílios com meus lábios para te transmitir segurança, pois sei que o pavor mais íntimo de todo ser humano é exatamente este: o abandono. Não tema, então: com a mesma devoção que te beijo, proteger-te-ei até o fim dos tempos, ainda que continues ao meu lado apenas por medo de ficar só no mundo.

Pinceladas. Pitadas de amor próprio, por onde andam? Dirão que não existem mais resquícios disso em mim? Dirão que me sujeito a migalhas. Que mendigo afeto, e que aceito teus farelos de amor. E digo, contrariando todos, que tuas esmolas me servem, mas não por muito tempo -espero-. Sei que isso é absurdo. Mas por enquanto, o que importa é que, no fundo, tenho esse mesmo desespero teu, e de todos: a solidão me apavora. Senso comum.

É óbvio que não desejo me contentar com os restos que me ofereces. Sonho com o dia em que superarei o vício de teus respingos e fagulhas perdidas, e ainda conseguirei me libertar dessa condição indigente. Não quero habitar o gueto dos teus pensamentos nem a favela na qual me instalei dentro do teu coração. Tenho plena consciência de que mereço nada mais, nada menos... Que um banquete.

8 comentários:

Suzana Martins disse...

Nessas minhas andanças pela blogosfera as suas palavras vieram ao meu encontro acariciando essa noite de sábado. Um banquete de sentimentos que não são perdidos e sim, uma avalanche do sentir.

Abraços

Pâmela Cristina Ribeiro Ferracini disse...

Lara, tu escreves como se fosse um bela e encantadora conversa de poetas e poetisas. Um doce e mágica união de palavras que me remeteram ao tempo das peças de Shakespeare. Sabe aquelas falas cativantes? Pois é, que maravilha, amei. Se perfeição existe, tu é um exemplo.

TiagoQuingosta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
TiagoQuingosta disse...

Esse texto, no todo, é digno de aplausos. Tenho apenas uma crítica, fundada ou infundada. Haha. O início do texto, os 3 primeiros versos, achei totalmente dispensáveis para o tópico frasal. E poderiam até servir para um novo poema. A partir do 4º verso tem-se a noção do medo da solidão e da mendicância oriunda deste medo.

Lívia Almeida disse...

Me senti na pele dessa personagem , pois me sinto exatamente assim, uma pedinte.

Parabéns, Lara.

B. disse...

Lembro que você já postou uma poesia sobre este tema e eu comentei que amor que é amor, não nos dá migalhas (Acho que não foram nesses termos, mas algo parecido). Porém, comecei a pensar através de outra perspectiva com esse teu novo texto. Talvez de migalha à migalha, pode-se conseguir o ser por inteiro. Talvez precisa-se esperar e permanecer. Contudo, sei que isso não afasta o sentimento de dor que a mendicância nos fornece.

B. disse...

Lembro que você já postou uma poesia sobre este tema e eu comentei que amor que é amor, não nos dá migalhas (Acho que não foram nesses termos, mas algo parecido). Porém, comecei a pensar através de outra perspectiva com esse teu novo texto. Talvez de migalha à migalha, pode-se conseguir o ser por inteiro. Talvez precisa-se esperar e permanecer. Contudo, sei que isso não afasta o sentimento de dor que a mendicância nos fornece.

Jô Ann disse...

Ninguém vive de migalhas, no entanto, as de amor, afeto, são as que estamos sempre a mendigar.
Você me encanta de uma maneira inefável. <3