quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Nature(ale)za I

 
Ela se perdia entre as flores, absorta em pensamentos. Eu a fitava, encantada, com medo até de piscar. Não queria perder a graciosidade de nenhum movimento que Ela fizesse, por mais natural que ele fosse. 
Inspirei. As rosas possuíam um perfume especial e único. Pareciam resumir em si todas as coisas boas que poderiam existir no mundo. Eu me perguntei como Ela era capaz de fazer aquilo. Formulei duas hipóteses. A primeira seria de que as rosas roubavam a fragrância dela e fixavam-na nas pétalas, porque Ela em si já era a síntese de todas as coisas boas. A segunda hipótese seria de que as rosas expeliam a condensação dos meus sonhos, como uma mágica.
Tudo era muito colorido, e enquanto eu olhava pela janela, esquecia todos os rancores e memórias ruins do passado. Ela parecia flutuar entre os trigais dourados, tais como o sol reluzente que fazia com que a pele dela brilhasse, ou melhor: irradiasse. 
Até quando eu, enfim, pisquei os olhos. 
Ela tinha virado de costas e saltitava para além do horizonte, e eu fiquei imóvel, em transe ou choque, até perdê-la de vista. As borboletas seguiram-na, e os trigais outrora dourados ficaram semelhantes à palha seca. A terra pareceu mais árida, e os girassóis estavam voltados para a direção em que Ela havia partido. O sol ficou coberto de nuvens e – não sei se foi impressão minha – de ciúmes também, pois estava sendo ignorado pelas flores que levavam seu nome. 
Senti que em breve as pragas e as ervas daninhas começariam a tomar conta do ambiente. Triste e sozinha, suspirei. Não havia cheiro algum. As rosas estavam completamente... Inodoras. Até mesmo as estátuas da fonte espelhavam minha expressão taciturna. 
Tive certeza, então, de que era Ela, apenas Ela, a criatura capaz de embelezar meu jardim novamente, porque o que o mantinha com vivacidade era a semente do nosso amor. Prometi a mim mesma que, se Ela voltasse, eu não cometeria um descuido sequer.
Os beija-flores me olharam com desprezo, mas ainda assim fiz minha prece. Eu iria regar a semente até que Ela brotasse mais uma vez em meu jardim e, é claro, em meus braços.

6 comentários:

nilson oliveira disse...

Muito bela a descrição da sua admiração do seu enlevo.
É realmente bom demais ver, ver e ver alguém que desejamos. Gravar os detalhes. E lembrar. Sonhar. Aguardar acontecer. Fazer tudo para acontecer.

Abraços,

Nilson

Luna Sanchez disse...

Reli, reli...

Lembrei dessa :

"Há de surgir
uma estrela no céu
cada vez que 'ocê' sorrir.
Há de apagar
uma estreça no céu
cada vez que 'ocê' chorar.
O contrário também
bem que pode acontecer,
de uma estrela brilhar
quando a lágrima cair
ou então de uma estrela cadente
se jogar
só pra ver a flor do seu sorriso
se abrir"


*-*

Amo-te.

Nayara Borato disse...

Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog Flores no Jardim. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs





Narroterapia:

Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.



Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

http://narroterapia.blogspot.com/

'Lara Mello disse...

Perfeito! Adorei o texto..

Espero um dia ter encantado alguém assim ^^

Daniel Savio disse...

Eu entendo bem este sensação de perda, mas por mais que durante a dor do momento não me deixe ver, outro sonho há de nascer no jardim e perfumar a nossa alma, mesmo que o nome Dela seja Girassol, Margarida, etc...

E linda poesia Lara.

Fique com Deus, menina.
Um abraço.

Brenda disse...

Adorável!
Amei.