quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Nature(ale)za - Final


A cama estava vazia; os móveis empoeirados. Assim como eu, o jardim vivia de lembranças, cada vez mais confusas, abstratas e surreais. Reguei minhas esperanças que murchavam a cada dia que passava, e a lua atualmente banha as velhas estátuas, deixando-as com um tom prateado.
Já faz tanto tempo que até esqueci o rosto dela, e estou em dúvida sobre a cor dos olhos: seriam eles negros, ou castanho escuros? O que mais me preocupa é que não lembro sequer o motivo da minha espera, quão longo foi o período de ausência... A saudade é um fio tênue que a separa da indiferença. Estaria eu curada, então?
Amanheceu e resolvi fazer uma faxina. Troquei as fronhas, as colchas. Lavei a louça acumulada e a pia pareceu me agradecer imensamente. Varri debaixo da cama e encontrei o pijama dela, jogado. Deve ter ido parar lá depois de eu tê-la despido e a amado durante a madrugada inteira. Me arrepiei um pouco com a possibilidade de ter sido esse o acontecido, mas as lembranças me eram agora falhas demais para que eu tivesse certeza. Tossi com o excesso de pó. Uma aranha correu, assustada.
Depois do fim da limpeza, me senti mais leve. Como se tivessem estalado todas as minhas costelas. Abri a porta e vi: os girassóis estavam voltados para a minha direção. Eu era luz, e o sol não se incomodou dessa vez.
Não faço mais questão de retorno. Se é hora de retornar, é para o que eu era antes dela. Eu já existia e isso bastava por si só, e eu carregava o peso de minhas angústias, derrotas e vitórias sobre meus ombros nus e autossuficientes.
No final das contas, descobri que posso manter meu jardim vivo sozinha. As borboletas bailam à minha volta e a semente que germinou no meu quintal agora é outra: a do amor. Próprio.

11 comentários:

nilson oliveira disse...

Amor próprio. O segredo de amar sempre começa com este amor. Com este respeito por nós mesmos. Sem esse limite, sem essa referência, sempre nos tornamos facilmente escravos de amores vazios e passageiros. Que por fim nem amores foram. Se foram. Sem terem ficado.

Como sempre, você sempre faz com que as palavras dancem em bela melodia.

E é bom de sentir.

Genny LiMo disse...

Espero que essa semente que germinou cresça forte e dê bons frutos e lindas flores. Espero que o teu coração se preencha desse amor. Próprio, e o verdadeiro significado do não retorno te faça aprender sobre a beleza de poder diferenciar o que passou do que ainda pode vir a germinar...


Boa noite, Lara, sua linda.

Andressa. disse...

Essa semente era tão crescidinha em mim, a de amor proprio principalmente...
mas ai, a gente começa a amar, ela vai se podando sozinha :/
É meio triste quando acaba

Evelyn Dias disse...

Sensualmente intenso e com uma surpresa deliciosa no final. Esse amor é tão belo, é "próprio" de cada um.

Beijos linda!

Luna Sanchez disse...

É uma constante batalha interna fazer com que esses amores existam simultaneamente, néam, pequena?

Ficou lindo isso.

=*

Jaci Rocha disse...

Uma partida gerando...gestacionando uma descoberta de um amor...primordial. =)
Lara, que coisa gostosa de se ler! =)

Pâmella Ferracini disse...

Quando acaba, se torno tão triste.
Voce transformou palavras em reação constante. Sensualidade em desejo oculto. O amor é muito lindo, mas, o amor próprio é mais ainda.

Beijo Lara (:

'Lara Mello disse...

Agente demora, mas aprende a nos amar ^^

Paulozab disse...

Quando a lua prateia em algo é sempre trazendo um novo pensamento...

Daniel Savio disse...

As vezes este "desinteresse" pelo passado é necessário para sobrevivermos...

E ficou lindo o poema.

Fique com Deus, menina Lara Utzig.
Um abraço.

B. disse...

Nossa, adorei esse. Mescla nostalgia com o presente.